Sou um rio

Sou um rio

José Renato Nalini*

05 de novembro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIELA RAMIRO/ESTADÃO

O mundo inteiro sabe que Maurício de Sousa é um ser predestinado. Sabe chegar à alma ingênua e sensível das crianças. Seu talento gerou a legião dos amigos da “Turma da Mônica”, presente há várias gerações em todos os continentes.

Também se reconhece a nobreza de caráter de Maurício, sempre aberto às nobres causas. Sempre parceiro, sempre generoso, sempre acessível. Não existe um objetivo benfazejo que não mereça a sua espontânea adesão. E tudo o que passa por sua magia adquire forma, cor, significado e se converte em mais um exitoso episódio de sedução. Aquilo que era sonho, anseio ou aspiração, logo se metamorfoseia em estrondoso êxito.

Sei disso há muito tempo e testemunho esse desprendimento do fabuloso artista, escritor, desenhista, pintor, pensador e filósofo. Um dos orgulhos que faço questão de nutrir é poder chamá-lo de “confrade”, ou seja, “irmão”. Estamos juntos na Academia Paulista de Letras, ambiente no qual Maurício semeia alegria e entusiasmo. Tornamo-nos crianças, ou fazemos reviver aquela criança que teima em residir no recôndito de nossa intimidade, quando ele oferece exemplares disputados de sua prolífica produção. Falamos que serão destinados aos netos. Mas antes disso, nos familiarizamos com as estórias, para melhor poder interpretá-las para nossos atenciosos ouvintes.

Maurício costuma surpreender. E agora lança o livro “Sou um rio”, com belíssimas ilustrações de Mauro Souza. Tenho tentado, há décadas, comover a insensibilidade para o gravíssimo problema da poluição dos rios. Militei na Câmara Ambiental do Tribunal de Justiça de São Paulo, desde a sua criação e só a deixei quando impedimento regimental me impediu de continuar. Também perpetrei o livro “Ética Ambiental”, que mereceu várias edições. Mas nada se compara com o que Maurício consegue com seu “Sou um rio”. Ele narra o surgimento daquele humilde filete d’água, certamente inspirado na nascente do Tietê, em Salesópolis, exatamente na região em que nasceu: Santa Isabel.

Parece que nos é dado assistir a essa geração: “Nasci hoje. Brotei, fiozinho d’água, do meio de seixos e gramíneos. E deslizo, suave e frágil, pela encosta, enrodilhando e buscando caminho entre pedras e torrões”.

O passo a passo vai do encantamento à tragédia que o ser humano, o animal que se vangloria de ser a única espécie racional dentre as criaturas, conseguiu concretizar com todos os nossos rios. O mais tenebroso e infame é o que se fez do Tietê. Quando os jesuítas chegaram ao Planalto, ele serpenteava por várzeas floridas e piscosas. Escolheram o lugar para a edificação do colégio porque era servido por pelo menos três grandes rios: Tietê, Tamanduateí e Pinheiros. Todos límpidos, servidos por afluentes que eram centenas de córregos e outros pequenos cursos d’água.

O que a inteligência humana fez de todos eles? Os rios passaram a servir de transporte gratuito de todo o flagrante atestado da miséria humana. Esgoto doméstico sem tratamento, produtos químicos venenosos das indústrias, carcaças de veículos roubados ou furtados, além de tudo o que a ignorância descarta, pois não imagina o que é economia circular ou logística reversa. É comum ver a quantidade de garrafas pet, de colchões, geladeiras, sofás, todo tipo de dejeto que faz dos rios – fontes de vida – canais mortos para um lento carregar do lixo dos homens.

Maurício vai ao ponto certo: “Mas de repente sinto uma coisa estranha, incômoda. Um grande cano me injeta, a partir da margem, uma sopa pestilenta, ácida, que me causa manchas escuras e tonteia os peixes que brincavam no meu interior. Tento reagir, misturando o líquido venenoso com minhas águas limpas”.

O drama dos rios é reproduzido com fidelidade, na linguagem que Maurício domina e que encanta os seus leitores. Entregou notável instrumento de conscientização ecológica, hábil a persuadir uma comunidade difusa, de que é urgente dar um basta à poluição desenfreada.

Esse libelo é muito mais eficiente do que poderiam ser os tratados de Direito Ambiental, do que os densos estudos científicos, acessíveis a um restrito círculo de destinatários.

A mensagem franca e convincente frutificará nas mentes infantis, ainda não corrompidas, nem anestesiadas pelo “fato consumado” de conviver com rios mortos, sem se importar com isso.

Maurício de Sousa, com o livro “Sou um Rio”, merece ganhar todos os prêmios e troféus atribuíveis a um ambientalista ativo, pois sua obra é eficaz e apaixonante.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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