Sou o mais visível dos invisíveis

Sou o mais visível dos invisíveis

Nestor Iván Saavedra Teran*

12 de julho de 2020 | 10h00

Nestor Iván Saavedra Teran. FOTO: DIVULGAÇÃO

Todo mundo me conhece. Todos. Minha popularidade saltou em 5 meses, não há mídia social aonde eu não apareça. Adoro a fama! Estava tão escondido entre outros seres menos apreciados, como porcos, galinhas e morcegos, e confinados em ambientes sujos e desconhecidos.

As proteínas da minha linda coroa não conheciam outro mundo, além do mundo animal, de espécies que a maioria dos homens não leva para casa. Talvez eles me pegaram em algum laboratório graças a seus enormes microscópios.

Meus outros amigos vivem na floresta, entre outros animais, mas eles têm um grande defeito, são impacientes e quando atacam, o fazem de forma rápida e assustam o meu alvo favorito: o ser humano.

Um dia, não me perguntem aonde, surgiu a grande oportunidade! Eu me encontrava na saliva de um bichinho, não me lembro bem qual deles, e realizei uma manobra que me tornou famoso. E, aproveitando a proximidade de um ser humano, pulei em direção a ele com grande habilidade e consegui seu código celular. Logrei algo grandioso, tinha realizado meu “salto de espécie”!

Alguns humanos inteligentes sabiam que um dia eu conseguiria essa façanha, mas eles estavam distraídos na soberba da comunicação 5G, cuidando de celulares que achavam rápidos. Agora, eles fazem curvas assustadoras para ver minha velocidade, tentando prever o famoso “pico”, mas eu sou mais rápido.

Com essa chave que abre células, fui para o melhor lugar social do ser humano, “sua boca”, convertida agora numa plataforma de lançamento. Viajo de conversa em conversa nas rodas de amigos, nas salas de teatro cheias, em jogos esportivos.

Adoro a vida social, pular de boca em boca, de sorriso em sorriso, de discussão em discussão, de mão em mão! Estava no meio social, em silêncio, antes mesmo de sair em revistas de todo o mundo.

Ah, adoro viajar! Vou de barco, trem e avião, sendo que os últimos são os melhores, pois rapidamente me levam a lugares incríveis, onde as bactérias gordas não sobrevivem. Sou um bom companheiro de viagem, porque geralmente não me manifesto durante o trajeto para não assustar, só no destino final quando os longos abraços chegam.

Eu gosto de jovens como eu, porque são otimistas, se sentem fortes e me levam para os idosos, aonde meu trabalho é mais fácil.

Comecei meu trabalho no extremo oriente e a população do ocidente culpou a do oriente e me usaram para outros problemas pendentes que tinham. Fizeram o mesmo com minha avó, a qual chamaram de “espanhola”, mas acho que ela era “americana”, de uma fazenda do Kansas. No final, ninguém sabe nossa origem. Mas, agora, queridos amigos, eu sou universal!

No começo, fui ignorado… Até que um oftalmologista inteligente e observador me viu várias vezes e falou com seus chefes. Eles já sabiam da minha existência, entretanto, mandaram-no ficar em silêncio. Eu aproveitei e o calei para sempre.

Sou tímido na minha chegada, gosto de deixar otimismo ao me derrotarem, unicamente me divido. Divido e divido com calma e serenidade. Aproveito o fato de que o sistema imunológico não me conhece e pulo de pessoa em pessoa, quanto mais sociável melhor! Amo as famílias! Aproximadamente depois de dois a sete dias sentem um calor de 39 graus e o sistema de defesa delas começa a querer me queimar. Às vezes acompanha uma dor de cabeça, intestino solto ou tosse seca e chata, nada que chame muito a atenção. Em alguns casos minha festa termina aí e ninguém sabe o porquê, nem eu. Mas isso já me ajuda a alcançar os outros.

Nesses outros faço meu melhor papel. Eu me torno uma pneumonia viral, daquelas que aparecem nas revistas médicas, com direito à tomografia, estou nos alvéolos e depois aniquilo outros sistemas: coagulação, renal, cardíaca.  Às vezes a defesa imunológica arruína minha festa; mas em outros casos ela me ajuda com uma explosão de citocinas e minha vítima fica solitária. Consigo fazer ela se sentir como um alpinista no monte Everest, quando, na verdade, está na sua própria cama, sem direito a descansar, e, no final, como um náufrago longe da praia, minha vítima se afunda em um mar sem água.

Dói-me ver as cidades silenciosas, porque elas me imobilizam e sabem que estou morrendo de tédio e solidão. Gosto das pessoas, do comércio, do barulho das vozes e das gargalhadas aonde realizo meus melhores saltos. Eles usam máscaras para evitar meus pulos e álcool para queimar minha coroa. Eu só aguardo um pequeno descuido.

Tenho duas grandes virtudes, minha paciência e meu tamanho.

Sou paciente em ouvir, especialmente quando as pessoas mais confiantes falam sobre mim, dizem que eu não existo, dizem que fui inventado para dominar o mundo. O comentário que mais me ofende é quando dizem que sou apenas uma “gripe” e me confundem com os bobos adenovírus.

Algumas pessoas são meus melhores promotores, ótimos amigos! Assustados com o rumo da economia, pedem que todos saiam, dizem que eu não existo, mas eu estou lá, pacientemente, aguardando. Finalmente coloco os mais pobres contra a parede, tendo que escolher: estômago ou pulmão, enquanto eu espero a decisão.

Minha segunda virtude é meu tamanho. Sou invisível, tão invisível que posso entrar na alma humana, como um terrorista. Ataco milhares de corpos, mas faço escravas milhões de almas.

Semeio o medo e coloco à prova o amor verdadeiro das pessoas. Eu as coloquei para orar novamente, até os ateus não se auto proclamam…

Meu tamanho as atormenta, elas acham que me veem em todos os lugares, no elevador, nas portas, nas salas de espera. Tirei o sono de muitos e ninguém no mundo acorda cantando. Sou o mais visível dos invisíveis, sou a essência do medo!

Mas há um grupo de teimosos que chama minha atenção. Essas pessoas também têm medo, mas com suas roupas brancas, que não as protegem da minha coroa pegajosa, aproximam-se das minhas vítimas e tentam de tudo para salvá-las. Sua coragem é admirável, muitas vezes eu os coloco do outro lado, contudo, eles persistem. Eles se aproximam de mim com máscaras, roupas anônimas e luvas, e me procuram com longos cotonetes ou no sangue. Eles são loucos por conhecer meu ponto fraco, e, assim, criar sua arma, uma vacina. Querem saber aquela parte dentro de mim que não muda, para me pegar de vez e assim eu deixo de ser invisível.

Eles sonham voltar a essa vida de abraços e de banalidades. No fundo, sei que vou perder. Acabarão com minha coroa e meu império de ruas solitárias. Mas os humanos precisarão mostrar muito amor entre eles e isso requer muita coragem.

*Nestor Iván Saavedra Teran, cardiologista e intensivista do Corpo Clínico do Biocor Instituto

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