Sou líder, apesar de ser mulher

Sou líder, apesar de ser mulher

Cynthya Rodrigues*

13 de março de 2021 | 04h00

Cynthya Rodrigues. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em fevereiro mais uma mulher ganhou reconhecimento mundial por sua atuação. A economista nigeriana Ngozi Okonjo-Iweala, de 66 anos, foi confirmada oficialmente como diretora-geral da OMC – Organização Mundial do Comércio -, criada em 1995 e que, até então, nunca tinha tido uma mulher no comando.

Ngozi Okonjo-Iweala não chegou ao posto por acaso. Foi diretora de operações do Banco Mundial, onde atuou por 25 anos, e por duas vezes comandou o Ministério das Finanças de seu país, de 2003 a 2006 e depois de 2011 a 2015.

Certamente essa é mais uma conquista que enche a todas nós mulheres de muita alegria. Afinal, nós ainda temos que provar nossos talentos e competências muito mais vezes do que qualquer homem. A gente acha que é lenda, mas já vi homem ganhar mais exercendo a mesma função apenas por ser homem. Vi uma colega ser demitida logo após voltar da licença maternidade, o que pessoalmente me causa um medo de engravidar, mesmo sendo um grande sonho. É como se você precisasse escolher entre a carreira e a maternidade. Medo que sequer passa na mente dos líderes homens, ao contrário, para ele, homem, ser pai é algo positivo, é o famoso “paizão”, o que remete a um profissional melhor, totalmente ao contrário da “mãezona” que, em algumas empresas, se precisar sair por alguma emergência ou porque precisou levar o filho ao médico é vista como menos profissional.

Já passei por situações onde colegas mulheres deram alguma ideia super interessante sobre um projeto e foram ignoradas. Momentos depois, o colega homem expressou a mesma ideia e foi aclamado por todos do grupo. Será que eu fui a única mulher que vivenciou esse tipo de situação? Certamente não e isso dificulta nossa ascensão em cargos de liderança.

Para muitos estamos caminhando para um equilíbrio nessa desigualdade, mas eu ainda acredito que estamos longe desse equilíbrio. A abertura desse artigo já diz isso, afinal, se fosse normal, ou se estivéssemos próximos a um ponto de igualdade, não nos causaria euforia uma mulher presidir um órgão criado há quase 30 anos. O mercado publicitário, onde atuo, é totalmente “falocêntrico” e endeusa homens medianos como “feras” mas são apenas homens, enquanto as profissionais mulheres, mesmo as que são realmente incríveis, acabam ficando muito atrás na fila da “meritocracia” pois ainda precisam provar dez vezes mais que qualquer homem que dominam o que de fato dominam.

Hoje eu tenho a honra de ter chegado onde cheguei, superando as barreiras de ser mulher e nordestina – o que também é um obstáculo. Sou respeitada como profissional. Sou tratada de igual para igual com todos os meus colegas, pois a cultura da empresa é muito forte e aberta nesse sentido. Aqui nunca senti nenhum tipo de desmerecimento por ser mulher. Me sinto muito à vontade em ser uma líder, pois o respeito está sempre presente e todos são muito inteligentes e recíprocos.

Porém, em certas reuniões externas, infelizmente, senti a necessidade de incluir o meu chefe no call apenas para me sentir mais segura com alguns interlocutores.

Minha dica para que mais mulheres se sintam como me sinto em meu trabalho? Compartilhe seus desejos para o futuro com os seus líderes. É importante que os profissionais ao seu redor saibam que você quer ser líder também. Digo isso pois na maioria dos casos não vemos tantas parecidas conosco lá em cima e isso nos causa um estranhamento, uma sensação de que não pertencemos a esses espaços de liderança, mas pertencemos sim. Infelizmente é mais difícil para nós, mas conseguimos chegar lá. Mantenha-se sempre atualizada e estude MUITO! Entenda muito tecnicamente sobre a sua área, e, principalmente, não esqueça de estudar sobre pessoas. São pessoas que levantam pessoas.

Precisamos ocupar os nossos espaços. Precisamos ter mais exemplos parecidos com o nosso e construir um mercado mais igualitário e com oportunidades mais justas.

*Cynthya Rodrigues é Business Development Director na PMP.BID

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