Somos sortudas por não vivermos mais na época das nossas mães, avós e bisavós

Somos sortudas por não vivermos mais na época das nossas mães, avós e bisavós

Mas será que isso nos basta?

Aline Sueth*

04 de março de 2021 | 07h45

Aline Sueth. FOTO: DIVULGAÇÃO

Este mês comemoramos o dia das mulheres e algumas de nós ainda irão ganhar lembranças e serão eletrodomésticos. Será que pelo mesmo motivo que temos hoje entre os 190 chefes de Estado apenas 9 mulheres? Ou será pelo mesmo motivo que na maioria das organizações apenas 15% das posições mais importantes sejam preenchidas por mulheres?

Tenho certeza que o mundo seria muito melhor se 50% das funções de liderança fossem ocupadas por mulheres.

O mundo atual súplica por característica que nos pertencem. Características que são do repertório natural feminino. Sabemos ouvir, observar além do óbvio, conectamos, somos intuitivas, sensitivas, flexíveis, sabemos congregar fatos e pessoas, somos ótimas futuristas e gostamos do bem comum.

Mas ainda hoje, muitas de nós, na busca (nada equilibrada) de conquistar uma posição de comando ao invés de demonstrar e fortalece-se nas suas qualidades naturais, endurece-se e forja uma conduta masculina. E como configuram por aí, “transformam-se num verdadeiro homem de saias”. Não é isso que a sociedade precisa.

Companhias mais humanas são companhias onde as energias e as características femininas estão em equilíbrio com as masculinas.

De fato, temos um desafio maior. Sempre o dilema do progresso da vida profissional competindo com as necessidades da vida pessoal, principalmente com o papel de gerar e alimentar as gerações seguintes. O que deveria ser um enaltecimento, muitas vezes torna-se um “gargalo”, um estreito “funil”.

E apesar de reconhecer que políticas de gestão possam ser desenvolvidas nas organizações e políticas para melhor gerirem suas mulheres, aqui neste artigo, queria refletir sobre três questões mais pessoais e voltadas para as crenças sociais, criadas sobre, e muitas vezes aceitas, por nós mesmas.

  1. Subestimar-se frente aos homens. São várias as afirmações universais enraizadas que nutrem isso. Desde o “por trás de todo homem existe uma grande mulher” até o termo bíblico “a mulher deve sujeitar-se ao marido”. Superemos essas limitações sociais e ideológicas, construídas para doutrinar uma humanidade que até então foi educada com cabrestos e rédeas.

Empodere-se mulher, ocupe seu lugar, sendo você, contribuindo com as suas habilidades e características diferenciadas. Não tenha receio de ser feminina frente as características masculinas. É o equilíbrio dessas duas energias que irá transformar o mundo, a sociedade e as empresas.

  1. Medo do julgamento social. Tem horas que nem as mulheres apoiam as mulheres. Ainda hoje, parte das mais severas críticas sobre a progressão feminina vem de outras mulheres. Começando pelas bem próximas, como avós e mães. Seguir o caminho da evolução requer muita resiliência, mas acima de tudo uma alta capacidade de dizer não para outras pessoas e sim para si mesma.

Ser autêntica, ser livre, não absorver o que é do outro. As críticas e julgamentos não são seus, vem do outro e que fiquem com o outro. Não pegue para sim, não as coloque na sua “malinha”. Tenha um compromisso com a sua consciência mais íntima e siga.

  1. Faça-se feliz primeiro. Ame o próximo, mas como ama a ti primeiro, salve o mundo, mas salve você primeiro. Dê ao outro aquilo que supriu primeiramente para si. Isso não é egoísmo, o mundo não precisa de heroínas. O mundo estima por exemplos e por equilíbrio. Toma posse do que é seu e pare de primeiro querer agradar e ser aceita, para depois demonstrar alguma, e provavelmente pouca, autenticidade. Mantenha-se flexível, mas não moldável. Coloque-se em primeiro lugar na sua vida. E responsabilize-se por si também (nada de síndrome de princesa, que espera a vida toda pelo príncipe e por ser salva). Essa postura fará toda a diferença.

Se não formos a geração que vai mudar o topo das organizações e da política, sejamos aquela que ressignificou de vez as crenças sociais, dando um novo rumo para as meninas e também para os meninos, educando-os de maneira bem diferente para serem futuros cidadãos em equilíbrio e com certeza mais felizes.

*Aline Sueth é diretora de gente e gestão do Grupo Elfa

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