Somos seres morais?

Somos seres morais?

José Renato Nalini*

08 de abril de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

As múltiplas e simultâneas crises que acometeram o Brasil começaram com a falta de ética. Para muitos pensadores, ética e moral são verbetes sinônimos e, portanto, intercambiáveis. Para quem pretenda sofisticar um pouco, a ética é a ciência do comportamento moral do ser humano vivendo em sociedade. A moral, portanto, é objeto de uma ciência chamada ética.

Ela faz muita falta à humanidade. Ao mundo em geral, mas, principalmente, em nosso país. Porque aqui as injustiças são mais flagrantes, as desigualdades mais cruéis e ainda existe uma parcela imensa de pessoas insensíveis. Não se comovem com a miséria do próximo e não se emocionam diante do que se faz contra a natureza, que é parte indissolúvel de nossa aptidão para continuar a existir.

Quem se detiver a ler “Tribos Morais”, um livro de Joshua Greene, verá que após Darwin, a moralidade humana se converteu em mistério científico. Ele conseguiu demonstrar a existência de uma seleção natural, baseada no individualismo. Os mais fortes, os que se apropriavam dos recursos disponíveis eram os que venciam a competição. Também se reproduziam mais e povoavam o planeta com sua prole egoísta.

Nesse mundo violento e selvagem, que Thomas Hobbes descreveu como sendo a luta de todos contra todos e onde o homem não é senão “o lobo do homem”, como foi que surgiu a moralidade?

Ela é concebida como um conjunto de adaptações psicológicas que permite que indivíduos, naturalmente egoístas, colham os benefícios da cooperação. Pois moralidade significa altruísmo, abnegação, renúncia, aptidão a suportar um custo pessoal em benefício de outras pessoas.

Ocorre que, biologicamente falando, os humanos foram projetados para a cooperação, mas não de forma generalizada. A cooperação funciona em relação a um círculo restrito. Não é difícil encontrar pais que cooperem com os filhos. Aliás, para sobreviver a prole necessita de cuidados permanentes, até que possa obter autonomia e já não precise do zelo materno/paterno.

Pode existir certa cooperação quando um grupo coeso tem algumas afinidades. Uma família expandida pode oferecer exemplos viáveis de formas cooperativas de convívio. Também quando existir um forte elo comum, como uma crença partilhada por um grupo, é possível se falar em cooperação.

A regra, infelizmente, não é essa. A evolução é processo eminentemente competitivo. A vida irracional o evidencia: um leão mais forte e mais rápido captura mais presas, é um campeão reprodutivo e aumentará a proporção de leões rápidos na geração seguinte. Assim como funciona para os carnívoros, a competição é essencial para a evolução da cooperação.  Essa questão foi enfrentada por inúmeros pensadores. Wittgenstein, por exemplo, afirmou que “a moralidade é capaz de subir a escada da evolução e então chutá-la para longe”.

Para Joshua Greene, há duas tragédias morais a ameaçarem o bem-estar humano. A tragédia original é o que se conhece por “tragédia dos comuns”. É o egoísmo, a incapacidade dos indivíduos de situarem o “nós” acima do “eu”. A nova tragédia, mais moderna, é a moralidade do senso comum. Ou seja: a moralidade no grupo menor não impede conflitos entre grupos. Daí o desafio de nosso tempo: temos urgência de um tipo de pensamento que permita a grupos com moralidades conflitantes, possam viver juntos e prosperar. É o que se poderia chamar de metamoralidade. Um sistema moral que possa solucionar discordâncias entre conjuntos gregários com distintos ideais morais.

A concepção de uma metamoralidade não é nova. Tem sido uma intensa batalha dos pacificadores, dos que pretendem que o mundo seja mais próximo ao que Jean-Jacques Rousseau imaginara do que passou pela mente atormentada de Thomas Hobbes.

Enquanto não chegamos ao estágio da metamoralidade, vamos nos enturmando em nossas tribos, acreditando sermos os únicos detentores da verdade, hostilizando todos os que ousam pensar de forma diferente.

Situação que se torna um flagelo quando há usinas de ódio espargindo variegadas formas de ira, numa polarização que divide, quando o Brasil precisa de adição de esforços para multiplicar suas oportunidades de retomar o único verdadeiro progresso, que é o progresso moral.

Vamos subtrair da consciência nacional aquilo que separa os semelhantes e propagar aquilo que as aproxima. Todos, neste momento, somos carentes de união e de partilha. Juntos, será mais fácil enfrentar aquilo que ainda virá.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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