Somos seres carentes

Somos seres carentes

José Renato Nalini*

09 de maio de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

A prolongada permanência da pandemia afeta profundamente a alma humana. Escancara-se a cruel divisão entre incluídos e excluídos, mas todos – sem exceção – subordinados à incerteza. O vírus microscópico não é percebido pelos assintomáticos, porém mata indiscriminadamente. Primeiro os velhos – alívio para as contas previdenciárias – depois aqueles com anterior comorbidade – desafogo para o SUS e para o sistema de saúde privado. Depois, jovens saudáveis. Tudo ainda inexplicável.

Convivem situações paradoxais. Os aterrorizados, que têm receio de tudo. Não querem contato, lavam com álcool as compras, usam luvas até para ler jornal. Os inconsequentes, que se aglomeram, se encostam, respiram e lançam perdigotos sem guardar a mínima distância de segurança, até porque não se sabe qual é. E a maioria não dispõe de condições de manter distanciamento.

Anuncia-se que o trabalho remoto causa uma série de problemas somáticos. Mas ele veio para ficar. Assim como a pandemia e suas variantes, na metamorfose aparentemente destinada a reduzir o adensamento populacional. Há gente demais no planeta e a natureza cuida de se livrar de boa parte dela?

Espíritos libertos da materialidade encontram lenitivo na meditação. É notório o incremento à oração, à proliferação de mensagens edificantes, de alento e conforto. A vida espiritual não é irreal ou se resume à fantasia. Sem a vida do espírito, a existência humana se tornaria inconsistente e ilusória.

Leituras podem auxiliar a manter o rumo e a reduzir as oscilações entre a angústia e o desespero. Uma delas é o clássico livro de Thomas Merton, “Homem algum é uma ilha”.

O pensador que foi considerado um dos maiores filósofos do século 20, célebre por seu “A montanha dos sete patamares”, se propõe a oferecer reflexão sobre algumas das verdades que servem de alicerce para uma vida espiritual gratificante.

Inicia reconhecendo: “por mais decadentes que pareçam o homem e o mundo, e por mais terrível que se torne o desespero humano, enquanto o homem continuar a ser homem, é a sua própria humanidade que continuará a dizer-lhe: a vida tem um sentido”.

Nem todos têm acesso a tal verdade. É claro que se pode sempre contar com a ajuda solidária na permanente procura de um sentido para a vida. Só que, em última instância, o indivíduo é responsável por encontrar-se a si mesmo.

O autoconhecimento é um aprendizado que não pode ser interrompido. Não há termo final. Pouco sabemos sobre nós mesmos. Há quem chegue ao final da existência e não se conhece ainda. Como se pode manter um relacionamento saudável com o outro, se não sabemos quem somos?

“Homem nenhum é uma ilha” foi escrito em 1954. Mas seu conteúdo serve perfeitamente para nossos dias: “Em tempos como o nosso, somente os duros ainda possuem a resistência necessária para preservar ao abrigo da ansiedade o seu sistema otimístico de princípios. Tal posição pode ser confortável: mas é segura? Num mundo onde toda a mentira tem livre curso, não é a angústia a mais real e a mais humana das reações?”.

Para Merton, a angústia é o sinal da insegurança espiritual, o fruto de perguntas sem resposta. E há muitas indagações que talvez a maioria não consiga responder: Por que nasci? O que estou fazendo aqui e agora? Tudo vai terminar quando eu morrer? Haverá vida após à morte? Se não houver a transcendência, qual o sentido em viver?

Essas questões habitam as mentes lúcidas. Todas elas. É impossível que alguém racional já não as tenha formulado. Ora, “o que todo homem procura na vida é a própria salvação e a daqueles com quem vive. Por salvação eu quero dizer – diz Merton – em primeiro lugar, o pleno descobrimento de quem é, de fato, ele mesmo”. E quando pensa em quem é, o ser humano “não pode encontrar-se apenas em si só, mas deve ter esse encontro de si mesmo também nos outros e através deles”.

Isso é o que significa “não ser uma ilha”. Não estamos cercados de nada em nossa volta. Temos necessidade uns dos outros. Precisamos do convívio como seiva para nutrir nossa existência, quantas vezes angustiante, sombria e até desesperadora.

Mais do que isso, precisamos nos amar, não egoisticamente, mas de forma a poder amar o semelhante. Thomas Merton pode nos auxiliar a compreender o mistério de que “não podemos amar-nos se não amarmos os outros e não podemos amar os outros, se não nos amarmos”. Enfim, não somos ilhas. Somos pedaço de terra firme, ligados ao continente humanidade. Seres efêmeros, frágeis e carentes. Quem se compenetrar disso, terá conquistado enorme progresso no caminho da serena aceitação de nossa finitude, impulso à valorização de cada instante que nos for dado permanecer nesta existência terrena.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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