Somos mulheres, negras, latinas, caribenhas e resistimos!

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25 de julho: Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra

Mônica de Melo*

21 de julho de 2021 | 09h00

Mônica de Melo. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Em Ursula, romance de Maria Firmina dos Reis, de 1859, mãe Susana, a preta Susana, rememora ao personagem Túlio, também um negro, como se iniciou seu cativeiro. Era uma mulher livre onde nasceu, tinha uma filha querida, marido a quem amava como a luz de seus olhos e os bárbaros fizeram com que deixasse tudo para trás: pátria, esposo, mãe, filha e até a própria liberdade.  Foi amarrada com cordas, seria escravizada. Suplicou que a deixassem, que tinha filha, mas os bárbaros sorriam-se diante de suas lágrimas e a olhavam sem compaixão. Viajou, por 30 dias, acorrentada de pé com mais 300, como animais ferozes, no estreito e infecto porão de um navio até chegar às praias brasileiras, onde outros tormentos a aguardavam. Muitos morreram por falta de ar, alimento e de água.

Maria Firmina dos Reis, mulher negra, que abriu a primeira escola mista para que meninas tivessem acesso à educação, em 1880 em Guimarães, no Maranhão, não assinou sua primeira publicação, na qual constou apenas “uma maranhense”. É considerado o primeiro romance abolicionista brasileiro escrito por uma mulher negra. Ficou esquecido por mais de um século, mas nos coloca diante de questões que merecem ser lembradas e refletidas no século XXI, especialmente no dia 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra.

O Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha foi criado a partir do 1º Encontro de Mulheres Negras da América Latina e do Caribe, em Santo Domingo, na República Dominicana e o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra foi criado em 2014 pela lei 12.987 de 02 de junho. Esse encontro, que ocorreu em 1992, aconteceu a partir de reflexões e ativismos de mulheres negras que não encontravam lugar no feminismo hegemônico branco eurocentrado. Mais de 350 mulheres negras de 32 países se reuniram e criaram a Rede de Mulheres Afro-latino-americanas, Afro-caribenhas e da Diáspora (RMAAD), como relembra Bianca Santana na biografia Continuo Preta: a vida de Sueli Carneiro. Sueli Carneiro em sua trajetória de intelectual e ativista tem defendido a necessidade de enegrecer o feminismo a fim de que as lutas por igualdade de direitos incorporem as experiências e as vivências das mulheres negras para que não sejam invisibilizadas, silenciadas e desumanizadas.

Lélia Gonzalez diria que há uma dupla dominação (de gênero e de raça) no sistema patriarcal-racista. O duplo caráter da sua condição biológica – racial e sexual – faz com que elas sejam as mulheres mais oprimidas e exploradas de uma região do capitalismo patriarcal-racista dependente. Justamente porque esse sistema transforma as diferenças em desigualdades, a discriminação que elas sofrem assume um caráter triplo: dada sua posição de classe, ameríndias e amefricanas fazem parte, na sua grande maioria, do proletariado afro-latino-americano. Lélia Gonzalez, uma das precursoras do pensamento interseccional, cria as categorias “amefricanidade” e “Améfrica Ladina” e explica que um dito popular sintetiza essa situação: “branca para casar, mulata para fornicar, negra para trabalhar”. Ou seja, abolida a humanidade das amefricanas, elas são vistas como corpos animalizados.

Maria Firmina dos Reis, através da literatura, dá voz à mulher negra escravizada, expondo o sistema de mando patriarcal e escravista, o sexismo e o racismo, recolocando o branco europeu como o bárbaro que ao desumanizar também se desumaniza. A preta Susana lá no século XIX já reconfigurava a ordem estabelecida reivindicando sua humanidade, liberdade e possibilidade de existência.

Um feminismo antirracista e decolonial deve se apoiar na longa luta das antepassadas, nos saberes ancestrais e presentes das mulheres negras, indígenas e nas mulheres racializadas que vivem os efeitos perversos da escravização até os dias de hoje.

Neste 25 de julho vamos nos aquilombar e resistir como fez Tereza de Benguela no quilombo do Quariterê. Ouçamos a poeta e cordelista Jarid Arraes (Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis): “Um exemplo muito grande é Tereza de Benguela. A rainha de um quilombo. Que mantinha uma querela. Contra o branco opressor. Sem aceite de tutela. Oh, Tereza de Benguela! Nosso espelho ancestral. Sua alma ainda vive. E entre nós é maioral. Nós honramos sua luta. Sua força atemporal!

*Mônica de Melo, defensora pública do Estado de São Paulo. Integrante do Coletivo Antirracista da Defensoria Pública do Estado de São Paulo e da ColetivA Nacional de Mulheres Defensoras Públicas

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