Somos monotemáticos?

Somos monotemáticos?

Saulo Mattos*

14 de dezembro de 2020 | 06h00

Saulo Mattos. FOTO: THIAGO VIEIRA

Nem sempre é possível sentir a promessa de vida nova que se anuncia a cada dia que sobrevive ao anterior. Mesmo com vozes lúcidas, poesias e abraços antigos, tem sido difícil respirar o chumbo gélido que invade as narinas no amanhecer das notícias. As estatísticas sobre estupros, abortos e letalidade policial concluem, perenemente, pelo “desaparecimento forçado” de pessoas negras. Não existe ano novo para a negritude, quando se sabe que, para ter como preencher os pulmões, deve-se resistir a todo tempo.

Conhece-se o amor. De preto à preta. De preta a preto.  Sabe-se, no olhar comprido, que o negro-amor cura. Wi-fi é tecnologia atrasada para quem sente a necessidade histórica de aquilombar-se. A questão é que, mesmo nesse curandeiro amor, não há paz. Está-se de prontidão a todo instante, porque o racismo não pede licença para matar. No último 20 de novembro, o sorriso programado para celebrar a consciência negra foi rompido pelo choro vertido sobre mais um negro brutalmente morto. Ainda assim, procure saber quem chorou.

Enquanto a outra banda ensina a seus filhos/as sobre matemática e português com recursos interativos de tablets, a maior parte da negritude prossegue na severa morte-vida, tentando aprender a contar a repentina ausência dos seus. Com dificuldades para saber quantas balas perdidas foram disparadas, não veem mais suas crianças nos quintais das casas insurgentes, que contrariam o estilo Niemeyer de projetar cidades. Mais duas crianças se foram. E o que é pior: muitas ainda morrerão assim.  Que será da família negra, com tantas gerações interrompidas?

No futebol, em que a troca de suor deve ser espontânea — ossos do ofício de gingar o corpo para fazer gol —, querem que os negros jogadores vistam a fantasia de macacos, não se misturem, e comam as bananas lançadas pelas arquibancadas. Nos supermercados, funcionárias têm que abandonar suas tranças ou esconder a tatuagem de seu Orixá, para se tornarem, esteticamente, menos agressivas. A família estrangeira que aceitou o negro/a, coloca-o/a sob a infernal condição de bem aprender o alemão contemporâneo, falar compassadamente, como se não existisse uma revolta enrustida. O negro/a, que se cala, enlouquece. Quando louco/a, desaparece outra vez mais, até ter a brancura da última pá de cal, que, aliviadamente, lançarão sobre seu corpo em despigmentação.

Carlos de Assumpção fotografou, poeticamente, um dos grandes dilemas da negritude: “o homem negro não tem sossego no peito/ é sem receio de erro que digo isto/se grita contra injustiça se protesta/leva a pecha de desajustado recalcado/se fica quieto é considerado fraco submisso.”

Criminalizaram cultos. Exploram empregadas, chamando-as de “quase da família” ou secretárias do lar. Iludem as crianças com restos de doces, separando-as de seus filhos na pureza da infância. Masturbam-se com desejos inconfessos por corpos negros/as. Matam-nos insaciavelmente. Querem silenciar nossa oralidade, rotulando-nos de monotemáticos.

Não somos isso que querem que sejamos. Diante de tanta opressão, apenas aprendemos a compartilhar dores, sem esquecer de celebrar as vitórias conquistadas em negra comunidade e com palavras de encantamento. E isso incomoda muita gente.

*Saulo Mattos, poeta e professor de processo penal

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