Somos e não somos!

Somos e não somos!

Ana Luiza Nery, Marina Coelho Araújo, Paula Tonani e Susy Gomes Hoffmann*

08 de março de 2022 | 07h00

Ana Luiza Nery, Marina Coelho Araújo, Paula Tonani e Susy Gomes Hoffmann. FOTOS: DIVULGAÇÃO

Há quem diga que já não é mais preciso lutar pelo direito de minorias, especialmente, minorias que são, numericamente, maiorias.

É um pensamento correto. Mas a realidade nos mostra que o que se pensa ou diz não é, necessariamente, o que acontece. Basta nos atermos aos dados da PNAD contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2019. Por eles, a população brasileira era composta por 48,2% de homens e 51,8% de mulheres. Logo, superamos a casa dos 100 milhões de mulheres brasileiras e somos maioria.

Muito embora as mulheres sejam o maior número entre brasileiros, isso não se reflete nos espaços de poder, sejam eles públicos ou privados: não estamos no topo das lideranças e da representatividade pública, não ocupamos a maioria dos cargos oficiais do primeiro escalão dos governos, tampouco somos maioria como CEO ou CFOs das companhias, sequer somos em maior número nos cargos de diretoria ou de lideranças do setor privado. Não somos maioria nos Parlamentos nem nos Conselhos de Administração. Também não superamos o número de homens quando se trata de liderança nos órgãos de classe.

Ainda assim, advérbios de negação prevalecem e há quem insista que as portas estão abertas para as mulheres, basta que entrem. Ora, se as portas se abrem para nós, por que ainda somos minoria para os cargos executivos e por que nossos salários são inferiores quando ocupamos posições semelhantes às dos homens? A 63ª edição da Pesquisa Salarial realizada pela Catho, marketplace de tecnologia que conecta empresas e candidatos de forma gratuita, revela que mesmo as mulheres sendo maioria com formação superior e pós-graduação, os homens ainda ocupam 61% dos cargos mais altos das empresas e ganham 19% a mais do que as mulheres para exercer a mesma função. Será mesmo que as portas estão abertas para nós mulheres, ou todos os dias precisamos empurrá-las com a força do nosso propósito de igualdade?

Se há igualdade, qual a razão de os números de feminicídio, da violência doméstica e de estupro não diminuírem? Por qual motivo as mulheres negras são as que recebem menor salário no Brasil? Em 2019, o Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) realizou um estudo, cujo resultado traz um dado estarrecedor e que expõe nossa realidade: a de que um homem branco tem um salário médio 159% maior do que de uma mulher negra.

E a pandemia contribuiu para aumentar as desigualdades. Desde seu início, as mulheres concentram o maior número de perdas dos postos de trabalho e representam 65% das vagas formais perdidas, segundo informações do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério da Economia. Além de menores salários, estão permanentemente mais vulneráveis em sua estabilidade.

A área jurídica também denuncia a desigualdade de gênero. Apesar do alto número de advogadas, juízas, promotoras e procuradoras, a média é de apenas 20% delas em cargos de liderança. Tome-se como exemplo a OAB. Das suas 27 seccionais, atualmente, somente 5 são presididas por mulheres (Bahia, Mato Grosso, Paraná, Santa Catarina e São Paulo). Esse número de mulheres a presidir seccionais da OAB, anote-se, representou um grande avanço nas últimas eleições e só foi possível em razão da política de cotas para mulheres e negros. Nos tribunais a realidade é semelhante, um pequeno número é dirigido por mulheres. Dos 27 Tribunais de Justiça dos estados brasileiros, apenas 5 são presididos por mulheres (Acre, Mato Grosso, Ceará, Pará, Rio Grande do Sul). Dos 6 Tribunais Regionais Federais, apenas o da Terceira Região é presidido por uma mulher. No Ministério Público, somente 6 dos 27 estados elegeram mulheres para o cargo de Procurador Geral (Amapá, Bahia, Distrito Federal, Espírito Santo, Rio Grande do Norte e Roraima).

A despeito de ainda dizerem que há igualdade entre homens e mulheres no Brasil, os números mostram que não há. Houve avanços: é só voltar ao passado para conhecer o sofrimento que nossas antepassadas passaram em função das desigualdades e injustiças. Hoje, ao contrário delas, respiramos aliviadas por podermos votar, por termos reconhecida a nossa capacidade civil, por podermos ser as donas dos nossos destinos. Melhores índices no mercado de trabalho foram conquistados, como mostra a (ainda diminuta) participação feminina nos cargos de liderança no cenário jurídico, mas é bom que se registre: foram conquistados em razão do trabalho de muitos anos das profissionais em galgar espaço dentro das organizações.

Contudo, sabemos que a luta pela igualdade permanece. Ainda há muito por alcançar: salários iguais para as mesmas funções, igualdade de participação nas posições de comando e de representatividade e, acima de tudo, respeito. Respeito por nossa luta, por nossa voz, por nosso corpo, por nossa união.

Falta-se com o respeito de muitas formas. Por exemplo, quando se diz que basta uma mulher querer que ela consegue o salário adequado ou o cargo respeitado. Diz-se isso como se a meritocracia fosse um balizador de justiça. Ora, muitas mulheres chegaram ao topo, mas à custa de talentos ímpares e próprios, esforços gigantescos, renúncia a filhos e parentes. Elas abriram as portas sozinhas e se firmaram como pioneiras para mostrar ao mundo que podem fazer e realizar todo e qualquer ato ou profissão. A verdade é que essas pioneiras eram muito melhores que todos ao seu redor, e conseguiram abrir as portas pela força da verdade inarredável de que eram melhores.

Ao falarmos sobre respeito, precisamos, ainda, denunciar o machismo estrutural que leva muitos a fazerem comentários misóginos, inaceitáveis e que afrontam a dignidade de toda e qualquer mulher. O exemplo visto nestes últimos dias em face de mulheres em campo de guerra, vulneráveis, carentes de proteção e que receberam olhares e comentários sexistas e que as objetificam nos revolta, e, infelizmente, comprova que estamos certas: não há igualdade, há machismo e as portas continuam fechadas para nós.

Nós precisamos das portas abertas em igualdade de condições. Não nos servem de nada os olhares e as palavras de admiração: queremos dar um basta na exigência de que sejamos fadas (ou bruxas) que conseguem o feitiço de atuar na profissão, cuidar dos filhos, ser organizada e todas essas qualidades que se reputam femininas, mas que nos assolam de culpa quando não as temos porque vivemos em uma sociedade machista. A responsabilidade pela casa limpa, pelos filhos bem cuidados, pela comida na mesa não é apenas das mulheres, mas de homens e mulheres em parceria.

E essa luta por igualdade não deveria ser só das mulheres. A equidade de gênero é um marco civilizatório e trabalhar para promover a igualdade de oportunidades entre os gêneros deveria ser o propósito de todos.

Enquanto não se entender que as portas só irão verdadeiramente se abrir quando as responsabilidades e as glórias forem repartidas igualmente entre homens e mulheres, com respeito a todos e aceitando que a diversidade é necessária para uma sociedade justa, a luta continuará.

Afinal somos MULHERES, e somos MAIORIA, mas, apesar disso, ainda não somos tratadas com IGUALDADE.

*Ana Luiza Nery, diretora Cultural do Iasp; Marina Coelho Araújo, conselheira do Iasp; Paula Tonani, conselheira do Iasp; e Susy Gomes Hoffmann, diretora de Comunicação do Iasp

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoDia Internacional da Mulher

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.