Soluços: o que está por trás?

Soluços: o que está por trás?

Marta Mitiko Deguti*

17 de julho de 2021 | 13h45

Marta Mitiko Deguti. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Apesar de ser tão corriqueiro e frequente em nossas vidas, nunca paramos para entender do que se trata.

Há alguns dias, em virtude da internação urgente do presidente da República, que vinha apresentando crises de soluços há semanas, passamos a dar mais atenção a esse sinal.

O que são soluços?

Soluços são contrações involuntárias e abruptas do diafragma, aquele músculo que separa o tórax do abdômen. Cada vez que o músculo se contrai, provoca o fechamento súbito das cordas vocais, o que leva à emissão daquele som característico do soluço.

Quais são as causas?

As contrações do diafragma que causam soluços são reflexas a alguns estímulos. Podem ser provocadas pela ingestão rápida de uma refeição volumosa, de alimentos apimentados, de bebidas alcoólicas ou refrigerantes, e até mesmo por respiração acelerada por emoções intensas. Também alterações súbitas de temperatura, ou deglutição de ar mascando chiclete são situações que podem causar soluços. Essas são as causas mais comuns, e costumam se resolver espontaneamente, dentro de 48 horas no máximo.

Mas existem algumas situações mais sérias, que podem provocar soluços mais prolongados. Lesões nos nervos do músculo diafragma (nervo vago ou frênico), tumores no pescoço são exemplos. Quadros inflamatórios  como Laringites, faringites, ou a doença do refluxo gastroesofágico, muitas vezes associados à azia, também podem causar irritação, desencadeando os soluços.

É preciso lembrar que, embora menos frequentes, existem também as causas  relacionadas ao sistema nervoso central que podem causar soluços por tempo prolongado, o que acaba sendo bastante desgastante para o enfermo. Acontece na presença de doenças graves como tumores cerebrais, meningites, encefalites, bem como em indivíduos que sofreram AVCs (acidentes vasculares cerebrais) ou são acometidos por esclerose múltipla.

Por fim, existem também as causas metabólicas- alterações nos sais minerais e hormônios que circulam no sangue – e tóxico-medicamentosas (secundárias a infecções ou efeitos de drogas). Acontecem como efeito secundário de medicamentos anestésicos, antiinflamatórios como corticóides, medicamentos que agem no sistema nervoso central como os barbitúricos e consumo regular e abusivo de álcool. Insuficiência renal crônica, infecções, pericardite (inflamação da membrana que envolve o coração), distúrbios de eletrólitos como potássio, magnésio ou cálcio e diabetes mellitus também são associados a soluços.

Obstrução intestinal causa soluços?

Soluços não são diretamente associados a obstrução intestinal. Os sintomas mais clássicos da obstrução são dor abdominal, náuseas, vômitos, distensão abdominal, parada de eliminação de gases e fezes. Mas os soluços podem ocorrer seja pelo refluxo do líquido parado no estômago, como também pelas alterações metabólicas decorrentes da situação de sofrimento das alças intestinais.

Quem tem maior risco de ter soluços?

Homens, pessoas ansiosas e em situação de estresse, pacientes submetidos à anestesia e cirurgias abdominais. Nos idosos e fumantes, os soluços podem lesionar os alvéolos pulmonares, o local onde existe a troca do oxigênio pelo gás carbônico do sangue. E nos pós-operatórios abdominais podem comprometer a cicatrização.

Como resolver os soluços?

A tradição popular ensina diversas manobras, como beber vários goles pequenos de água fria ou morna, prender a respiração por alguns segundos ou respirar dentro de um saco de papel, tomar um susto, comer açúcar granulado ou uma colher de mel. De fato, existem explicações racionais para explicar porque tais medidas podem ajudar. Porém, é importante saber o momento de procurar ajuda médica.

Quando procurar o médico por causa de soluços?

– Se os soluços se prolongarem além de 48 horas;

– Se houver comprometimento da alimentação, sono e respiração;

– Se houver dor abdominal, febre, cansaço ou indisposição mais significativa.

Em resumo…

Enfim, os soluços são bastante comuns e na maioria das vezes resolvem-se espontaneamente ou com medidas caseiras. Mas não podemos subestimar quando acontecem, porque, além de comprometer a qualidade de vida, podem ser a primeira ou a mais evidente manifestação de algum problema que pode ser tratado!

*Marta Mitiko Deguti, mestra em Medicina e doutora em Ciências pela Faculdade de Medicina da USP. Títulos de Médica Especialista pela Federação Brasileira de Gastroenterologia e pela Sociedade Brasileira de Hepatologia

Bibliografia:

Kohse EK, Hollmann MW, Bardenheuer HJ, Kessler J. Chronic Hiccups: An Underestimated Problem. AnesthAnalg. 2017 Oct;125(4):1169-1183.

Hiccups. https://www.mayoclinic.org/diseases-conditions/hiccups/symptoms-causes/syc-20352613?p=1

Tratado de Gastroenterologia – da graduação à Pós-Graduação. Editores Zaterka S &Eisig JN. São Paulo Editora Atheneu; 2011 ISBN 9788538801702

Cecil Essentials of Medicine 2021. Wing EJ &Schiffman FJ. Philadelphia, PA. Elsevier; 2022. ISBN 0323722717

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