Solução existe: basta querer

Solução existe: basta querer

José Renato Nalini*

29 de novembro de 2020 | 10h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Um dos raros consensos brasileiros é de que o Estado tentacular e perdulário já não responde aos anseios de uma cidadania digital. Continuar a impor uma carga tributária abusiva e proporcionar serviços públicos de péssima qualidade é algo intolerável. O desalento com a Democracia Representativa é um sintoma que, se não for encarado com seriedade, fará desabar a frágil estrutura sobre a qual se ampara a República Federativa do Brasil.

Os otimistas ficaram ansiosos quando das acenadas reformas, imprescindíveis e mais do que urgentes. Tributária e administrativa, sem falar na reforma política. Havia até notícia de que um grupo anarco-capitalista estaria a orientar autoridades ministeriais, para que o Brasil do anacronismo, qual fênix tupiniquim, ressurgisse renovada e eficiente do fracasso da gestão pública. Todavia, dias, semanas, meses passam e nada!

Enquanto isso, outros países fazem a “lição de casa” e mostram ao mundo que é possível melhorar. Um exemplo é Portugal. Causa inveja o fato de ali ter sido criada uma Agência com autonomia para recrutar e selecionar, por concurso público, os dirigentes da alta direção estatal.

Essa ideia de Agência Reguladora de RH deveria ser transplantada para o Brasil, não como uma estatal a mais, para acolher apaniguados, parentes transversais, companheiras e companheiros, filiados a partidos da coalizão ou seus familiares.

Os únicos exemplos de seleção meritocrática bem sucedida em nosso país são o Itamaraty, que garimpava a nata da juventude para bem servir à Nação, principalmente no exterior, e as Forças Armadas. As escolas militares produzem pessoal de excelência. Não é por acaso que os oficiais brasileiros são chamados a participar de forças de paz em várias oportunidades e em outras nações. Não é pela “cordialidade” ou pelo “jeitinho” brasileiro. É por competência mesmo.

Já os demais concursos, padecem da medíocre replicação do ensino pátrio: a transmissão de informações e o adestramento do educando para que extraia da memória os dados arquivados, quando lhe forem solicitados.

Assim como a educação convencional negligenciou as habilidades ou competências socioemocionais, como empatia, capacidade de comunicação, adaptabilidade, tolerância, sensibilidade, criatividade, empreendedorismo e outros atributos sequer cogitados na escola, os certames estatais continuam o marasmo do recrutamento por “decoreba”.

O drama é que isso se repete em carreiras de Estado que precisariam de talentos compatíveis com os desafios da Quarta Revolução Industrial. A profunda mutação disruptiva já impregnou a vida de todas as pessoas. A Inteligência Artificial e os algoritmos conduzem nosso comportamento, nossas escolhas, nosso ritmo e nossa vida. E nem sempre os responsáveis pelo treinamento e preparo das novas gerações têm noção disso.

O exemplo de Portugal é calcado na expertise da iniciativa privada. O capital não pode brincar com dinheiro, como ocorre frequentemente na área pública. A empresa tem de dar resultado. Não é para prover a cota-parte de quem é chamado a partilhar do banquete dos poderosos, nutrido pela miséria nacional.

Uma seleção científica deve partir da elaboração do perfil desejável, para só depois, mediante utilização de técnicas inteligentes, detectar os melhores quadros. Aqui, não há coincidência necessária entre os primeiros classificados e seu desempenho posterior na vida pública. Uma chaga que se alastra é a de busca exclusiva de uma estabilidade, até de uma vitaliciedade, que alguns cargos públicos propiciam. Com isso, infla-se a burocracia que nada cria, nada transforma, nada quer mudar, apenas vegeta num cargo que garantirá proventos integrais – ou quase – e pensão decente para os descendentes.

É mais do que chegada a hora de desinflar o Estado brasileiro. Devolver à iniciativa privada aquilo que ela tem condições de fazer melhor. Quem não tem contra-cheque ou hollerith no quinto dia do mês tem de mostrar a que veio. Tem de produzir. Tem de inovar. Tem de criar alternativas para oferecer a cada dia melhor performance. Embora o Estado disponha de minoria sacrificada, há muitos gargalos de ineficiência e de uma burocracia mortal. E haja população para sustentar o “custo Brasil”.

A mudança drástica dos concursos públicos é algo que faria enorme bem para o Brasil. Reduzir o gasto do governo com pessoal também é impositivo. Não é necessário mandar ninguém embora. É incentivar aposentadoria voluntária e não realizar mais concursos. Afinal, a República já não tem condições de manter essa estrutura arcaica, anacrônica e, em parte, necrosada. Isso emperra o desenvolvimento brasileiro. E as novas gerações esperam que haja paradeiro nisso, porque senão o quadro ficará ainda mais trágico. Um Estado pesado e a juventude sem ter emprego ou condições de trabalhar.

Solução existe, portanto. É só querer. O Brasil que trabalha quer reformas. E os políticos? Querem também?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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