Sócio da Engevix propôs simular ‘provas’ para Lava Jato, diz força-tarefa

Delator do esquema de corrupção na Eletronuclear relata que José Antunes Sobrinho, preso na Operação 'Ninguém durma', sugeriu 'formalizar projetos e documento' para apresentar aos investigadores

Redação

22 de setembro de 2015 | 05h00

Obras de Angra 3. Foto: Eletronuclear

Angra 3 é alvo da Lava Jato. Foto: Eletronuclear

Por Julia Affonso, Ricardo Brandt e Fausto Macedo

Delator do esquema Eletronuclear, o empresário Victor Colavitti afirmou em depoimento que o sócio da empreiteira Engevix José Antunes Sobrinho propôs “formalizar projetos e documento” para apresentar à força-tarefa do Ministério Público Federal na Operação Lava Jato. Sobrinho foi preso nesta segunda-feira, 21, na Operação ‘Ninguém Durma’, 19ª fase da Lava Jato, por suspeita de pagamento de propina ao ex-presidente da Eletronuclear Othon Luiz Pinheiro da Silva – preso desde 28 de julho.

“Estamos fazendo prova de que não só realizou pagamentos no caso Angra3 até janeiro de 2015, portanto quando Gérson Almada (outro sócio da Engevix, preso na 7ª fase da Lava Jato) ainda estava preso, bem como fazendo prova que entrou em contato com testemunhas para fazer uma operação de fato”, afirmou o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, da força-tarefa da Lava Jato.

A Link Projetos, de Colavitti, mantinha contratos com a Engevix e com a Aratec Engenharia, controlada por Othon Luiz. Segundo a Procuradoria da República, a propina saía dos cofres das empreiteiras, passava por empresas intermediárias, entre elas a Link Projetos, até chegar à Aratec. Nos quatro contratos entre Engevix e Link Projetos, assinam pela empreiteira José Antunes Sobrinho e Cristiano Kok, outro sócio da companhia.

Repasse de R$ 765 mil foi ‘contribuição a projeto’, diz José Antunes Sobrinho

Lava Jato rastreia contas de almirante da Eletronuclear no exterior

‘Nunca pedi propina’, afirma Othon Luiz Pinheiro da Silva

Victor Colavitti admitiu em delação premiada que a Aratec Engenharia, empresa controlada por Othon Luiz, não prestou qualquer serviço para a Link Projetos. Segundo ele, os repasses teriam sido efetuados a pedido da Engevix, sob o pretexto de que não poderia efetuar diretamente os depósitos na conta da Aratec. O empresário declarou à Procuradoria da República que foi José Antunes Sobrinho quem pediu a ele que fizesse os repasses à empresa de Othon Luiz – o almirante teria recebido cerca de R$ 30 milhões em propinas, dos quais pelo menos US$ 4,5 milhões foram localizados em contas da Aratec, segundo o Ministério Público Federal.

“Antunes disse ao declarante para não ficar preocupado porque iria conseguir formalizar projetos e documentos, inclusive junto à Aratec, e que poderiam sustentar a regularidade dos pagamentos; que Antunes informou providenciaria cerca de vinte a vinte e cinco desenhos com o logotipo da empresa do declarante, para que fossem apresentados ao Ministério Público Federal”, relatou o delator.

O dono da Link Projetos contou que procurou José Antunes Sobrinho, pois estava ‘assustado’ com intimação do Ministério Público Federal para apresentar documentos sobre a relação da Link com a Aratec. Em 20 de julho de 2015, ambos se encontraram em um prédio em São Paulo.

“Lá chegando Antunes já estava no local, sendo que o declarante (Victor Colavitti) lhe mostrou uma cópia da notificação que havia recebido do Ministério Público Federal e também a cópia do contrato entre Link e Aratec, e disse que estava assustado com esta situação; que Antunes disse ao declarante que daria um jeito e que iria resolver isso, já que o declarante lhe havia feito um favor”, disse o depoimento.

O empresário afirmou que a conversa durou poucos minutos. De acordo com ele, depois do encontro, José Antunes Sobrinho ‘nunca mais’ fez qualquer contato. Documentos obtidos pelo Ministério Público Federal confirmaram que o dono da Link Projetos e o sócio da Engevix estiveram em 20 de julho de 2015 no edifício onde Colavitti afirmou que houve o encontro.

“Constata-se ainda que, considerando o que declarou Victor Colavitti e o comprovando encontro entre ambos no dia 20 de julho de 2015, José Antunes Sobrinho mentiu em seu depoimento ao afirmar que “o declarante [José Antunes] não tem contato pessoal com o assunto com Victor Colavitti há mais e um ano”, destacou o juiz Sérgio Moro em decisão que determinou a prisão preventiva de José Antunes Sobrinho.

COM A PALAVRA, CARLOS KAUFFMANN

1. José Antunes Sobrinho foi preso nesta data pelos mesmos fatos que originaram o processo criminal no âmbito da Eletronuclear, sobre os quais ele espontaneamente prestou esclarecimentos às autoridades competentes;

2. Causa perplexidade que a prisão tenha sido decretada durante a vigência do prazo de sua defesa, sem que tenha surgido prova ou fato novo que a justificasse;

3. Há vários meses o Grupo Engevix está colaborando com a Controladoria Geral da União – CGU, visando celebração de acordo de leniência, conforme previsto em lei.

4. José Antunes Sobrinho não procurou qualquer testemunha para produzir, ocultar ou alterar prova. Ao contrário, foi procurado por Vitor Colaviti, em julho passado, antes de saber que havia investigação, e se negou a discutir o tema;

5. A história profissional de José Antunes Sobrinho e de sua atuação perante a Eletronuclear estão detalhadas na defesa já apresentada para o Juiz Sergio Moro, cujo teor ainda não foi apreciado.

Carlos Kauffmann

Tudo o que sabemos sobre:

Eletronuclearoperação Lava Jato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.