Social network: a importância das redes de interação social

Social network: a importância das redes de interação social

Pedro Gonet Branco e Yasmin Graeml*

28 de maio de 2021 | 14h50

Pedro Gonet Branco e Yasmin Graeml. FOTOS: ARQUIVO PESSOAL

Os seres humanos têm uma tendência inata a se relacionar e a construir redes de interação social entre si. Essa inclinação natural foi potencializada com os avanços tecnológicos das últimas décadas, que promoveram uma verdadeira revolução nas formas de se transportar e de se comunicar – o que facilita viagens distantes, comunicação global e interação digital. O estado atual de desenvolvimento da humanidade faz com que seja quase tautológico afirmar que o mundo nunca esteve tão conectado quanto hoje.

O fato de que os seres humanos estão profundamente interligados pode ser percebido, por exemplo, na disseminação do SARS-CoV-2, vírus causador da Covid-19. Após os primeiros relatos da doença no território chinês, o patógeno se alastrou pelo mundo de tal maneira que mesmo aqueles que nunca tinham estado na China ou conhecido alguém que lá houvesse ido padeceram do novo coronavírus.

Passou-se, então, a promover políticas públicas que estimulavam o isolamento ou, ao menos, o distanciamento social. A medida é importante porque a doença altamente infecciosa se propaga pelo contato entre os indivíduos que participam de uma mesma rede de interações. Desse modo, se uma pessoa X, infectada pelo vírus, tem contato com as pessoas Y e Z e cada qual destas com mais duas pessoas, e assim sucessivamente, a doença tende a se propagar indefinidamente, até mesmo para quem nunca conheceu a pessoa X. Impedir a conexão entre as pessoas permite que se quebre a rede de infecção e, consequentemente, que a doença deixe de prejudicar a sociedade.

Não são apenas as moléstias, no entanto, que se espalham por grupos de pessoas conforme as redes de contatos desses indivíduos. Da mesma forma que uma doença pode ser transmitida a um terceiro que desconhece o primeiro emissor do patógeno – primeiro emissor esse que é o “nó” da rede de contatos que permite sucessivas conexões – também uma informação pode ser propagada indefinidamente e alcançar indivíduos que não se conhecem.

Não à toa há quem diga que o compartilhamento de ideias pode gerar um contágio social. Uma diferença óbvia entre esses tipos de “contágio” é que, em regra, os indivíduos infectados por uma doença o são de modo involuntário, sem liberdade para acolher ou não o que a eles se transmite. Já os indivíduos em uma rede de contatos que têm acesso a novas informações e ideias são livres para adotar ou deixar de adotar o que lhes é transmitido.

Essa difusão, seja de doenças, seja de ideias e informações, é devida às redes de interação social, ou networks, que podem ser compreendidas como o conjunto de conexões entre diferentes elementos, sejam pessoas, objetos, bits na internet, entre outros.

O sociólogo norte-americano Nicolas Christakis defende, nesse sentido, que a compreensão das networks e do modo como elas se formam e operam é essencial para entender não só a saúde pública, mas também as emoções e qualquer outro tipo de fenômeno – de crimes e guerras a crises financeiras e inovações tecnológicas.

A importância da configuração dessas redes pode ser ilustrada, por exemplo, com a estrutura química de dois conhecidos materiais, o diamante e o grafite. Ambos são compostos unicamente por átomos de carbono. Nada obstante, é nítida a diferença entre o diamante que adorna um anel e o grafite que dá utilidade ao lápis. O motivo é a diferente forma de organização dos átomos de carbono dentro da estrutura de cada material.

Do mesmo modo que as conexões que dão determinada configuração aos átomos de carbono influenciam as suas propriedades físicas, também os elos que se formam entre os seres humanos conferem às pessoas características distintas. É por isso que o comportamento individual de cada membro de um mesmo grupo pessoas depende das conexões que se estabelecem entre elas.

Esse efeito se relaciona com o princípio da homofilia, importante conceito no estudo das networks, segundo o qual as pessoas tendem a ser semelhantes aos seus amigos. David Easley e Jon Kleiberg, em precioso livro sobre as redes de relacionamento, identificam pesquisas que permitem concluir que os elos em uma network tendem a conectar pessoas que são semelhantes entre si.

Afirmam que “os amigos geralmente são semelhantes em características mais ou menos mutáveis, incluindo os lugares em que vivem, suas ocupações, seus níveis de riqueza e seus interesses, crenças e opiniões”. Não se olvidam, evidentemente, do fato de que há amizades que ultrapassam essas fronteiras, mas afirmam categoricamente que elas não são a regra.[1]

Dessa afirmação surge um questionamento interessante, quer seja saber se essa similitude se deve à seleção das pessoas no momento da formação da amizade ou à influência que determinado grupo exerce sobre os outros indivíduos.

Algumas pesquisas realizadas com jovens norte-americanos concluíram que tanto a seleção inicial quanto a posterior influência interna desempenham papel determinante para que se perceba a prevalência de grupos homogêneos na sociedade. Em outras palavras, as pessoas procuram círculos sociais compostos por indivíduos como elas, e a pressão dos colegas faz com que se adaptem aos padrões de comportamento dentro de seus círculos sociais.

Essa compreensão pode ser importante, por exemplo, para a formulação de políticas públicas de combate às drogas entre os jovens. Um estudo liderado por Thomas Valente identificou que o uso e abuso de substâncias químicas são fortemente associados e influenciados pelo uso que existe em uma determinada rede de interação social. Indica que os adolescentes imersos em grupos nos quais a maioria dos amigos era de fumantes tinham quase o dobro de probabilidade de fumarem eles próprios.

Compreender essa realidade permite que o Poder Público adapte seus esforços para diferentes círculos sociais. Assim, se em um grupo de adolescentes há uma maioria de usuários de drogas, o primeiro passo é tentar afastar os ainda não-usuários, aproximá-los de amigos que também não consomem entorpecentes e, depois, direcionar os trabalhos para convencer os demais a largarem o vício. Já em um conjunto de pessoas em que a maioria não tem contato com as drogas, as políticas públicas devem se voltar à manutenção dessa realidade e dedicar atenção especial aos que padecem do vício, de modo que não influenciem os demais, ao mesmo tempo em que recebam apoio para abandonar o hábito prejudicial.

O estudo das networks é importante, também, para compreender e facilitar o desenvolvimento profissional dos cidadãos. O sociólogo norte-americano Mark Granovetter conduziu pesquisa, na década de 1970, para compreender a importância das redes de interação social para conquistar um novo emprego. Ao contrário do que o senso comum faria supor, a pesquisa apontou que não foram os amigos mais próximos dos interessados em uma nova posição profissional que de fato contribuíram para essa mudança.

Os resultados do estudo fizeram com que Granovetter desenvolvesse a teoria da força dos laços fracos (strength of weak ties). Os laços que formamos, vale lembrar, estruturam o capital social da pessoa, isto é, o conjunto de indivíduos que se consegue contatar de maneira relativamente rápida, simples e sem dispêndio excessivo de energia.

A tese do sociólogo é que as transições da vida, como a conquista de um novo emprego, dependem mais do contato com conhecidos distantes – pessoas com quem mantemos interação mais fraca na network – do que com amigos próximos. O argumento que sustenta a teoria é o de que esses são os laços sociais que nos conectam a novas fontes de informação e, consequentemente, a novas oportunidades.

Assim, enquanto os laços fortes são importantes para a manutenção das relações íntimas dos cidadãos – como a discussão de um problema pessoal, o pedido de um conselho ou uma conversa franca com um amigo próximo – os laços fracos são determinantes para a aquisição de novas informações.

Essa realidade foi bem compreendida por entusiastas da tecnologia e da internet, que passaram a buscar meios para facilitar essas conexões. Um bom exemplo de rede social que foi capaz de explorar os conceitos envolvidos no estudo das networks é o LinkedIn, plataforma criada para aproximar pessoas com os mesmos interesses profissionais, proporcionando maior extensão aos laços fracos.

Outras social networks, como Facebook, Twitter e Instagram, contribuíram igualmente para a quebra de barreiras geográficas, permitindo que as pessoas se conectassem facilmente por todo o mundo.

Essas redes sociais tornaram-se não apenas as praças públicas para o debate de ideias políticas[2], mas também espaço de conexões entre pessoas que têm algo em comum. A internet e suas milhões de comunidades abriram portas para que todos encontrassem seus pares e os grupos que compartilham as mesmas perspectivas de vida, ambições e comportamentos. Basta uma mensagem de texto para o começo de um possível laço forte entre as pessoas.

Deve-se, no entanto, cuidar para que esse ambiente virtual, que potencializa efeitos como a homofilia, não isole os indivíduos em bolhas intransponíveis, onde apenas prosperam os laços fortes de pessoas que pensam do mesmo modo.

Redes de interação social – virtuais ou físicas – em que todos gostam das mesmas coisas, recebem as mesmas informações e conversam com as mesmas pessoas pode acabar levando à alienação dos indivíduos, especialmente pela facilidade de se esquecer, bloquear e excluir laços fracos por divergências de ideias. É importante ter em mente que conflitos na internet, mesmo que tenham a aparência de serem entre dois avatares ou perfis despersonalizados, afetam a realidade humana.

Mesmo que na esfera virtual esses grupos consigam coexistir sem interagir uns com os outros, é necessário compreender que rompimentos de elos desse tipo traz consequências negativas para o individuo e para a sociedade, especialmente por impedirem o surgimento e o acesso a novas oportunidades, como comprovado no mencionado estudo de Mark Granovetter.

Não é difícil perceber, portanto, que os benefícios das redes de interação social superam em muito os custos de sua manutenção. Nada obstante alguns inconvenientes de se estar em intensa conexão, como a disseminação de epidemias, a propagação de coisas e ideias boas e valiosas levam à conclusão de que preservar e estender laços é fundamental para uma vida mais leve, feliz e rica, em todos os sentidos. Fica a esperança de que nos próximos anos a humanidade consiga manter e formar ainda mais conexões.

*Pedro Gonet Branco, acadêmico de Direito (UnB). Editor-chefe da Revista dos Estudantes de Direito da Universidade de Brasília (RED|UnB). Diretor Institucional da Alumni FD/UnB. Visiting-student na University of California Berkeley

*Yasmin Graeml, jornalista (PUC/PR). Especialista em “Jornalismo na Era Digital” pela University of California Berkeley. Editora do Blog Qualquer Latitude. Co-fundadora do programa Brazucas no Vale

[1] Cf. Networks, Crowds, and Markets: Reasoning about a Highly Connected World, de David Easley e Jon Kleinberg.

[2] Conferir, a propósito, o texto “A regulação do discurso nas redes sociais”, disponível em: https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/a-regulacao-do-discurso-nas-redes-sociais/

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