Sobrinha de ministro do TCU ‘sabia porque foi contratada pela Odebrecht’, diz delator

Sobrinha de ministro do TCU ‘sabia porque foi contratada pela Odebrecht’, diz delator

Henrique Pessoa Neto, executivo da empreiteira, contou à Lava Jato que contratação de parente de Raimundo Carreiro fez parte de um acordo para 'influenciar decisão da Corte que destravaria processo contra edital de Angra III'

Luiz Vassallo

22 de abril de 2017 | 05h43

FERNANDA CARREIRO

A contratação da sobrinha do ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Raimundo Carreiro pela Odebrecht fez parte de um acordo para influenciar a decisão da Corte que destravaria um processo contra o edital de construção de Angra III, no Rio, segundo o executivo da construtora, Henrique Pessoa Neto. As solicitações, de acordo com o empresário, partiram da UTC Engenharia, que liderava o consórcio e acompanhava os processos no TCU.

Fernanda Carreiro, sobrinha do ministro do TCU, trabalhou para a Odebrecht como auxiliar administrativa entre 2013 e 2015. Além dela, o delator alega ter sido necessária a contratação, pelo consórcio, do advogado Tiago Cedraz, filho do ex-ministro do TCU Aroldo Cedraz, por R$ 1 milhão. De acordo com o depoimento, nenhum serviço foi prestado pelo parente do ex-integrante da corte.

Documento

Quando se pré-qualificou à construção de Angra III, o consórcio liderado pela UTC Engenharia foi alvo de uma representação no TCU de um concorrente do edital. O relator era o ministro Raimundo Carreiro. “O consórcio tinha contratado um advogado específico. Mas ele fazia um acompanhamento natural e a coisa não andava. Em uma das reuniões, o Miranda [Antonio Carlos Miranda, da UTC Engenharia] trouxe a informação de que tinha um caminho para resolver o problema. Seria através da contratação de um advogado”.

Após a contratação de Tiago Cedraz, advogado e filho do ex-ministro do TCU Aroldo Cedraz, por R$ 1 milhão, o processo foi encerrado e a concorrência pôde ter continuidade. “Ele não produziu nada que nós tivéssemos tido acesso. Simplesmente, tivemos a grata satisfação de ver o problema resolvido”.

Em seguida, integrantes da UTC Engenharia ainda levantaram a necessidade de contratar a sobrinha do ministro relator do caso, Fernanda Carrero Roxo, segundo delatores. A Odebrecht contratou a auxiliar administrativa.

“Era uma pessoa complicada. No final, os chefes dela disseram: ‘olha, se é para atender um pedido seu, então toma de volta’. Terminei deixando trabalhar uns dois meses próxima da minha sala. Uma vez, falou que era sobrinha dele. Ela sabia e dizia isso. Ela comentava e sabia porque estava lá.”, afirmou o executivo Henrique Pessoa Neto.

Outro delator, Fábio Gandolfo, disse que ‘tomou conhecimento das tratativas entre as empresas participantes dos dois consórcios concorrentes em prejuízo ao caráter competitivo da licitação’.

A reportagem não localizou nesta sexta-feira, 21, a sobrinha de Raimundo Carreiro. O espaço está aberto para sua manifestação.

Na última terça-feira, 18, Carreiro informou, por meio de sua assessoria, que ‘nunca manteve contato com qualquer pessoa da citada empresa (Odebrecht)’.

O advogado Tiago Cedraz informou que ‘desconhece e jamais esteve na presença dos senhores Henrique Pessoa e Fabio Gandolfo’.

De acordo com Tiago, “Gandolfo, inclusive, já foi ouvido no inquérito e disse desconhecer qualquer ilícito envolvendo TCU, invalidando a versão de Ricardo Pessoa”.

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