Sobre vacinas, feeling e timing

Sobre vacinas, feeling e timing

Rodrigo Augusto Prando*

09 de dezembro de 2020 | 10h55

Rodrigo Augusto Prando. FOTO: DIVULGAÇÃO

Certa feita, numa reunião política, um senhor, veterano de campanhas políticas, com vitórias e derrotas, asseverou para todos: “Em política, de tudo que vivi, escrevi, o mais importante é estar atento a duas palavrinhas – feeling e timing! O resto é menos importante”. O embate do Presidente Bolsonaro com o Governador de São Paulo João Doria é, sociológica e politicamente, revelador do feeling e timing de cada um, especialmente, no que tange à vacina capaz de imunizar contra o coronavírus.

Em 7/12/20, Doria anunciou que em 25/1/2021 iniciará a vacinação em São Paulo para profissionais de saúde, indígenas e quilombolas e todos aqueles que, residentes ou não no estado, buscarem os postos de saúde. Tal afirmação do governador deu-se sem que a vacina Coronavac, desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com o laboratório chinês Sinovac, tenha recebido o registro da Anvisa. Afirmou, ainda, que em 15/12/20, enviará à agência todas as informações científicas atinentes ao processo de desenvolvimento da vacina, bem como aguardará o prazo de 40 dias para que a Anvisa conceda a autorização para iniciar a vacinação. Com essa atitude, não foram poucos os jornalistas e analistas políticos que indicaram que Doria coloca, no tabuleiro da política, um xeque-mate em relação a Bolsonaro. Rememore-se que, não faz muito, Bolsonaro, nas redes sociais, comemorou a paralisação dos testes da Coronavac por conta de um óbito, cantando vitória em relação à “vacina do Doria”. Contudo, pouco após, o óbito foi esclarecido como um suicídio, sem relação direta aos possíveis efeitos colaterais da vacina.

E, no Brasil, com cerca de 177 mil mortos e com elevação no número de contaminados e óbitos que, para especialistas, pode indicar uma segunda onda no bojo da pandemia, o que fez, politicamente, o Presidente Bolsonaro? Em evento, também no dia de hoje, no Palácio do Planalto, Bolsonaro e a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, inauguraram uma exposição dos trajes usados por ambos no dia da posse, em janeiro de 2019. Como não poderia deixar de ser, o evento recebeu críticas assaz pertinentes, pois, até o momento, não há, por parte do presidente ou do Ministro da Saúde, General Eduardo Pazuello, nenhum sinal acerca de um plano nacional de vacinação. Pazuello, inclusive, aceitou a “missão” de ser ministro da saúde, pois muito se confiava em sua competência no campo da logística, aspecto imprescindível para uma vacinação em todo o território nacional. Até agora, seu conhecimento em logística não teve utilidade no ministério que, ao que tudo indica, está à deriva com um ministro que foi – como com os antecessores – desautorizado sucessivas vezes por Bolsonaro.

Assim, ao que tudo indica, a Coronavac está prestes a se tornar realidade em São Paulo e, em contrapartida, a vacina com recursos federais, desenvolvida pela Fiocruz em parceria com Oxford/AstraZeneca, apresenta dificuldades nos procedimentos de pesquisa e, ainda, da necessidade de investimentos mais volumosos do governo federal para construção de uma fábrica capaz de produzir o imunizante. Neste cenário, prefeitos e governadores já iniciam as tratativas junto ao Instituto Butantan e ao Governo de São Paulo, bem como alguns países já sinalizaram interesse na Coronavac. Neste caso, estes atores políticos – prefeitos e governadores – há tempos são descrentes de que Bolsonaro exerça uma efetiva liderança política efetiva no combate à pandemia. Inclusive, pode ocorrer judicialização da vacinação chegando demandas no Supremo Tribunal Federal.

Deixo, ao leitor e à leitora, as duas palavrinhas do início deste escrito: feeling e timing. Quem – Bolsonaro ou Doria – no que tange à pandemia e à vacina apresenta maior sensibilidade (feeling) e senso de oportunidade e domínio do tempo (timing)? Como estarão, ambos, eleitoralmente, em 2022? Veremos.

*Rodrigo Augusto Prando, professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Graduado em Ciências Sociais, mestre e doutor em Sociologia, pela Unesp

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