Sobre ovelhas, cães e lobos

Sobre ovelhas, cães e lobos

Eugenio Paes Paes Amorim*

04 de abril de 2020 | 17h43

Eugenio Paes Paes Amorim. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em Katmandu, capital do Nepal, havia uma fazenda com um vasto rebanho de ovelhas. Nos arredores da Fazenda, e muitas vezes ingressando nela, havia inúmeras matilhas de lobos ferozes, que dia após dia atacavam as ovelhas, dilacerando os corpos das inocentes e jogando ao luto as famílias ovinas.

Havia, por óbvio, em dita fazenda, inúmeros cães que eram regularmente pagos pelos donos da propriedade, e cuja responsabilidade era proteger as ovelhas.

Havia cinco espécies de cães.

A primeira delas fazia a vigília ostensiva da fazenda e sempre que flagrava a aproximação dos lobos cuidava de prendê-los ou de matá-los. Curiosamente, entretanto, as próprias ovelhas e muitos cães das outras espécies que veremos adiante voltavam-se contra estes nobres cães protetores e protegiam os lobos sanguinários.

Também existia a segunda leva de cachorros que era a responsável pela investigação dos atos praticados pelos lobos. Estes trabalhavam incessantemente, sem tempo mesmo para dormir, e sem eles seria impossível a devida punição dos lobos. Mas estes cachorros, por igual, eram costumeiramente desrespeitados e atacados por algumas ovelhas e mesmo por algumas outras espécies caninas.

A terceira espécie canina tinha inúmeros cães pomposos, elevados pelas regras caninas da fazenda há alguns anos, que muito se esforçavam para colocar nas jaulas os lobos sanguinários. Estes cães, porém, a certa altura começaram a enjaular lobos de categorias superiores e passaram a sofrer seríssimas represálias dos próprios lobos, tantas vezes com o aplauso também das ovelhas, dispersas em discursos de que os lobos pomposos ganhavam benesses demais e etc…Ou seja: mais uma vez as ovelhas faziam o jogo dos lobos.

A quarta espécie canina era talvez a mais interessante. Eram pagos para proteger as ovelhas mas apaixonaram-se enlouquecidamente pelos lobos sanguinários. Pegavam os lobos no colo, alisavam seu pelo, mantinham até relações mais íntimas com os lobos e chegaram a um tal estado coletivo de amor pelos assassinos que esqueceram sua condição de remunerados pelos donos da fazenda. Nesta sanha insana pregavam que os lobos eram vítimas de uma sociedade ovina opressora e faziam tudo o que podiam para que todos os lobos se mantivessem soltos e matando as ovelhas a vontade. Aproveitavam-se até de momentos de tensão, como uma praga de carrapatos que caiu sobre o rebanho, para colocarem milhares de lobos à solta. Miseráveis…

Agora falemos da quinta espécie. Eram muito pomposos também. Tinham uma megalomania extrema – pensavam que eram cães Deuses – e eram os últimos a dizer o que devia ser feito. Alguns tantos deles até que tentavam proteger as ovelhas. Entretanto, grande parte destes cães quase Deuses lamentavelmente associaram-se à quarta classe de cães e usaram todo seu poder para, sem os menores critérios, colocar os lobos assassinos em liberdade sob toda a sorte de argumentos distantes da realidade e da necessária proteção da sociedade ovina da fazenda.

Que estória fictícia triste!

Qualquer semelhança com situações outras é, sem sombra de dúvida, mera coincidência. Essa é apenas uma estória de Katmandu.

*Eugenio Paes Paes Amorim, promotor de Justiça na 1ª Vara do Juri da capital – Porto Alegre. Formado em Direito em 1989 pela PUC de Porto Alegre. Promotor de Justiça há 28 anos. Há 11 anos no Tribunal do Júri da Capital. Especialista em Direito Penal e Processo Penal, ex-conselheiro do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária – CNPCP. Professor titular do Curso Tribunal do Juri, Segredos e Estratégias, com aulas via internet

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