Sobre outras pestes

Sobre outras pestes

José Renato Nalini*

04 de fevereiro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Há mais de um ano falamos de Covid19. A peste absorveu nossa capacidade de pensar em outras coisas. É onipresente, a nos atormentar. Vive-se o pânico da pandemia, sonha-se com ela. Mortes próximas não chegam a ser assimiladas, pois não chegamos a nos despedir. Não cumprimos o ritual do velório, do féretro, do abraço apertado nas missas de sétimo dia.

Mas há outras espécies de peste. Aprofundar-se no estudo filosófico propicia encontrar algumas delas. É o que Glyn Daly atribui a Slavoj Zizek, no livro “Arriscar o impossível”. Para ele, “no contexto dos chavões e da banalidade de uma cultura predominantemente pós-moderna, Zizek representa o equivalente filosófico de uma peste virulenta, ou talvez, atualizando a metáfora, um vírus de computador cujo objetivo é romper com as aparências cômodas do que se poderia chamar de matriz do capitalismo liberal global”.

O motivo é que Zizek nos infecta com uma dúvida fundamental sobre os próprios pressupostos da realidade social. Para isso, ele se vale de inúmeros recursos: é a “mescla estonteante de elementos: proposições ousadas, bravura estilística e uma audácia intelectual que não hesita em se deslocar entre os píncaros das abstrações conceituais e os aspectos aparentemente reles e voluptuosos da vida popular e sensorial”.

Ele tem presente a inexplicável loucura, inerente e constitutiva de quem pensa. É aquilo que Kant chamava de “mal diabólico” e que Schelling e Hegel designaram como a “noite do eu” e a “noite do mundo”. A negatividade seria a característica de todo ser humano.

Há conflito permanente entre o pré-humano, bruto e selvagem, e a subjetividade civilizada pela luz da razão. Esta seria suficiente para domesticar e dominar o pré-humano.

Mas não é sempre que isso acontece. Ou melhor, quase nunca. A passagem pela loucura deixa sequelas e a aquisição de nível civilizatório é uma tentativa incessante. Persiste a ameaça sempre presente de desintegração e negatividade.

Parece que a humanidade enfrenta esse jogo neste momento. Muito dissenso, muita intolerância, muita perversão e crueldade. Tudo ideologizado, já que a ideologia proporciona a interpretação simbólica da realidade. Elabora uma fantasia suprema, como a única maneira de fugir aos efeitos traumáticos do real.

Por isso é que se constroem teorias de conspiração, disseminam-se inverdades, ridiculariza-se o adversário, como se a galhofa servisse para deslegitimar tudo aquilo que o “inimigo” possa ter feito de bom, correto ou adequado. A ideologia exerce o papel de reencenação fantasística da realidade. Assim como no regime nazista o judeu encarnava todos os males, para cada um dos polos, o veneno está no outro.

A ideologia consubstancia o sonho – ou o pesadelo? – da eliminação do Outro. O aspecto lúdico da política partidária mal consegue disfarçar a busca de uma definitiva extinção do concorrente. Dela faz parte o chavão recorrente: “ouvir todos os lados”, “salvar a democracia”, “sentir o sofrimento do excluído”, “oportunidades iguais para todos”.

No entanto, continua a obscenidade. Disfarçada ou escancarada. Hábitos entranhados na conduta dos detentores de poder e autoridade estatal. Nada se faz para propiciar a cada ser humano deste planeta, um nível de vida minimamente civilizado.

Para Zizek, é urgente uma transformação da imaginação ético-política. “Já não se trata de elaborar diretrizes éticas dentro do arcabouço político existente (os diversos “comitês de ética” institucionais e empresariais), mas de desenvolver uma politização da ética – uma ética do real”.

Ética, onipresente no discurso. Ausente na prática.

Embora não seja necessário concordar com tudo o que Zizek sustenta, é interessante conhecer seu pensamento. Ele cresceu em Liubliana, capital da Eslovênia, na Iugoslávia do pós-guerra. Seu sonho era ser cineasta. Acabou filósofo.

Escreve um livro por ano, mas afirma: “…detesto escrever. Detesto intensamente escrever, não consigo dizer-lhe o quanto. No momento em que chego ao fim de um projeto, vem a ideia de que não consegui realmente dizer o que pretendia, de que preciso de um novo projeto – pe um perfeito pesadelo”.

Somente a leitura de seus livros permitirá a conclusão de que sua palavra representa outra espécie de peste. Aquela que mostra que a estrutura política de praticamente todo o planeta é um projeto que não pode ser considerado exitoso.

Haveria outra forma de convívio, baseada na singeleza de se considerar cada ser humano uma potencialidade de possíveis destinos bem-sucedidos, todos eles alvo de respeito, consideração e reconhecimento de sua ínsita dignidade como integrantes da única espécie considerada racional? A conferir.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.