Soam as trombetas

Soam as trombetas

José Renato Nalini*

06 de março de 2022 | 09h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

O mundo funciona à base de interesses. O verbete “interesse” traduz o capitalismo em que o globo está imerso. Não faz sentido contrapor socialismo ao regime capitalista. Até os países que se autodenominam democracias sociais tornam-se exemplos nítidos de capitalismo estatal.

O mercado é uma entidade ultrassensível. Reage de imediato a qualquer sintoma de mudança. E o Brasil deveria prestar mais atenção à sua má-fama crescente no restante do planeta. Uma tragédia como a de Petrópolis, que se repete em 2022, fazendo eco mais forte ao que aconteceu em 2010 e em 1988, repercute no mundo como sinal da trágica omissão governamental diante do aquecimento global.

Ligar o que acontece em Petrópolis ao desmatamento e à destruição da Amazônia e dos demais biomas é um passo. O Wall Street Journal lembra que o Brasil está colhendo as consequências da desastrosa política ambiental, pois chuvas torrenciais causadoras de catástrofes e de mortes ocorreram também na Bahia, em Minas, em Goiás e em São Paulo. Enquanto isso, a seca no sul golpeou fortemente o sucesso da produção de soja, com a qual os civilizados contam para nutrir seu gado.

O alemão “Suddeutsche Zeitung dedicou extensa reportagem sob título “Brasil está ameaçado por boom de veneno”, comentando que em 2021, mais de quinhentos venenos agrícolas foram aprovados, mais do que nunca dantes. O “pacto do veneno” permitiu a introdução, no Brasil, de herbicidas proibidos nos países cultos. Os próprios alemães recomendam que os produtos de duas empresas deles – Bayer e Basf – sejam boicotados. Pois elas ganham dinheiro no Brasil com a venda de venenos vedados na Europa. Outra recomendação da imprensa alemã: mamão, manga e outras frutas brasileiras chegam contaminadas ao mercado europeu. Não devem ser adquiridas.

Enquanto esse alerta soa entre aqueles que leem jornais e se interessam pelo que se passa no globo, o Brasil continua a oferecer notícias tétricas em relação à ecologia. O garimpo ilegal continua à toda no Pará, junto aos rios Crepori e Tajapós. A Polícia Federal realizou ação conjunta para combater essa prática incentivada pelo governo e próxima à terra indígena Mandaruku, nos municíios de Itaituba e Jacareacanga. Em janeiro, as águas do rio Tapajós em Alter do Chão, região conhecida por suas águas cristalinas, apareceram com outra cor.

Logo no primeiro dia, foram localizadas oito escavadeiras, dezesseis motobombas, quatro acampamentos, duas balsas e mais de dez mil litros de combustíveis. A ousadia dos criminosos é tamanha, que há pouco atearam fogo em viaturas do IBAMA e em pleno curso da operação policial, cercaram o prédio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade em Itaituba, maior cidade da região. Enquanto isso, o governo federal acena com estímulo a que tais ações deletérias continuem, inclusive editando decreto com diretrizes do Pró-Mapa – Programa de Apoio ao Desenvolvimento da Mineração Artesanal em Pequena Escala. De grão em grão, a delinquência vai corroendo o que resta de estrutura organizada e lícita em favor da natureza. Descumprindo o artigo 225 da Constituição da República e a vasta legislação infraconstitucional, na certeza não só da impunidade, mas do aplauso do Poder Público.

Na sanha da destruição do patrimônio ecológico, também se extermina uma senda promissora, que o governo ignora e sepulta: o turismo. Pois a região de Alter do Chão, por suas belezas naturais, é conhecida como o “Caribe da Amazônia”. Poderia atrair o turismo ecológico do planeta, hoje tão preocupado com o aquecimento global. Antes de seu aproveitamento, que não é conhecido sequer pelos brasileiros, o garimpo ilegal conspurca as águas, mata a fauna e a flora e continua no projeto de “terra arrasada”, do qual o governo se sai airosamente.

Para piorar, o desmatamento às margens dos rios Juruena e São Manuel, que desaguam no Tapajós, vão acrescentando força ao processo de extermínio do agora e do amanhã. Sem perspectivas de reversão. Quando é que se poderá contar com a criação de um outro espaço de tamanha beleza e exuberância, para substituir aquele que os homens insensatos fulminam?

Mas não é só lá que o terror prospera. O esvaziamento do Inpe – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais para monitoramento do desmatamento no cerrado trará outras consequências nefastas para o Brasil. O cerrado é fundamental para o equilíbrio ambiental do planeta. Grilagem, desmatamento, incêndio criminoso, está pondo fim ao que um dia se chamou “cerrado”. Região importantíssima e pouco estudada, sofre seus ataques sem causar alarde, mas fatais.

As trombetas da civilização soam em desfavor do Brasil. Continuaremos surdos a tais alertas?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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