‘Só tinha tucano, eu fui obrigado a tirar’, diz Lula sobre nomeação na Petrobrás

‘Só tinha tucano, eu fui obrigado a tirar’, diz Lula sobre nomeação na Petrobrás

Ex-presidente explicou à Polícia Federal, em 4 de março, durante depoimento na Lava Jato, como eram feitas as nomeações na estatal petrolífera; ao falar de política e de coalizões, o petista disse: 'É assim que funciona. É assim que o Janot montou a equipe dele'

Julia Affonso, Mateus Coutinho e Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba

14 de março de 2016 | 17h37

Edifício da Petrobrás, no Rio. Foto: André Dusek/Estadão

Edifício da Petrobrás, no Rio. Foto: André Dusek/Estadão

Em depoimento coercitivo à Polícia Federal, na Operação Lava Jato, em 4 de março, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva explicou como foram feitas as nomeações para as diretorias da Petrobrás. Segundo o petista, ‘cada ministro e cada líder do partido coalizado, participa da montagem do segundo escalão do governo’.

“Houve troca de diretorias da Petrobrás no início do seu mandato?”, questionou o delegado durante o interrogatório.

“Houve, era tudo tucano, porra. Só tinha tucano, eu fui obrigado a tirar. Tinha um que era tido como um Deus, tinha um que era tido como um Deus da Petrobrás, aí eu tirei, foi trabalhar com o Eike Batista, é o que o afundou o Eike.”

Para a força-tarefa da Lava Jato, a maior estatal do País foi vítima de uma esquema de corrupção e propinas entre 2004 e 2014. Os ex-diretores da Petrobrás Paulo Roberto Costa (Abastecimento), Renato Duque (Serviços), Nestor Cerveró e Jorge Zelada (ambos da área Internacional) e o ex-gerente executivo Pedro Barusco foram condenados por corrupção e lavagem de dinheiro na investigação. Segundo as investigações, as maiores empreiteiras do País reuniram-se em cartel e se apossaram de contratos bilionários da companhia.

Em um trecho do depoimento, o delegado quis saber de Lula se ele ‘tinha conhecimento da divisão das diretorias da Petrobrás por partidos políticos’.

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“Não é divisão por partido político, gente, principalmente um leigo, um burocrata que não entende de política é que trata a questão da política como se fosse uma coisa secundária. Política é uma coisa muito séria e muito responsável, fora da política não existe saída pra nenhum país do mundo. Então quando um presidente no Brasil, nos Estados Unidos, na Suécia ou na Finlândia, ganha uma eleição no sistema de coalizão, ele é obrigado a governar num sistema de coalizão. Não é de partido político não, é fazer com que as pessoas que ajudaram a ganhar as eleições participem do governo. É assim que funciona. É assim que o Janot montou a equipe dele, assim é todo mundo da equipe. Quando você é eleito para um cargo, você monta em função das pessoas que você conhece. Você não vai colocar o inimigo, que trabalha contra os interesses do teu programa de governo, para dirigir uma empresa”, respondeu Lula.

“E o senhor Renato Duque, como é que foi a indicação dele?”, perguntou o delegado.

“Do mesmo jeito, querido. Do mesmo jeito”, respondeu Lula.

“Como é que chegou o nome ao senhor, por qual partido?”, quis saber a PF.

“Veja, todos os nomes chegam pela Casa Civil, porque era isso que eu estou te falando, discute-se com o partido que vai indicar, discute-se com a liderança do partido, vai pra Casa Civil, faz a triagem através do GSI e esse nome vem pra você. Aí você pega o nome manda para o Conselho Administrativo da Petrobrás, ela indica ou não”, disse o petista.

” Foi assim com o Jorge Zelada também?”, questionou o delegado.

“Com todos eles”, afirmou o ex-presidente.

“Certo. Nestor Cerveró?”, perguntou a PF.

“Com todos eles”, disse Lula.

O petista também foi questionado pela Polícia Federal sobre a maneira como eram feitas as nomeações dos diretores da Petrobrás.

“Eu vou repetir o que eu já falei, não apenas o diretor da Petrobrás, qualquer diretor ou qualquer pessoa que vai trabalhar no Governo Federal, quando você ganha uma eleição, eu vou explicar, quando você ganha uma eleição, sozinho, são as pessoas do partido majoritário que escolhem. Escolhem o Delegado Geral da Polícia Federal, escolhem o Superintendente se quiser escolher o Superintendente, escolhem o Procurador Geral da República. Tudo isso é o presidente que faz. Quando você trabalha num regime de coalizão, você sai de uma coalizão e você coloca ministros de vários partidos pra governar. Cada ministro e cada líder do partido coalizado, participa da montagem do segundo escalão do governo. Então quem indica os diretores são as pessoas da área do ministério, são as pessoas das lideranças dos partidos que compõem o governo que vão indicando, essas pessoas passam pela Casa Civil, tem uma investigação GSI, pode falar assim?”, disse Lula, provavelmente referindo-se ao Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República.

“Certo”, respondeu o delegado.

“GSI, sabe? E se a pessoa não tiver prontuário, se a pessoa não tiver capivara, cada pessoa indica. Eu já fui perguntado, já me perguntaram de Paulo Roberto, já me perguntaram do Duque, já me perguntaram… Essas pessoas são funcionários de 30 anos da Petrobrás. São pessoas de carreira, que nunca a Polícia Federal levantou a suspeita, nunca o Ministério Público levantou suspeita, nunca a imprensa levantou suspeita, nunca a oposição sindical levantou suspeita, nunca nenhum dos 86 mil funcionários levantaram suspeita. Porque lamentavelmente as pessoas não nascem com carimbo na testa, ‘eu sou filho da puta’ ou não, ‘eu sou ladrão’ ou não, você fica sabendo depois. Quantos caras vão no casamento da filha, entra com a filhinha toda bonitinha pra entregar virgem a um canalha que 3 meses depois dá uma surra na filha dele? Então, meu filho, essas pessoas são gente de carreira, gente que estão lá, que já tinha ocupado cargos importantes na Petrobrás. Então, é assim que são indicadas as pessoas. Já vem lá o nome, vem dois nomes, três nomes, quatro nomes, esse aqui indicado pelo partido tal, Ministério é tal, o líder é tal. “Esse cara aqui é mais qualificado. “É qualificado? Vamos indicar.”

Em seguida, o delegado perguntou se a palavra final era do presidente.

“Hein?”, disse Lula.

“Enquanto o senhor era o presidente a palavra final era sua?”, questionou o delegado.

“Não, a palavra final era do conselho da Petrobrás”, afirmou o petista.

O delegado, então, que saber se o conselho era político.

“Não, o conselho é o conselho da Petrobrás, é o conselho que nomeia, isso é como embaixador, é como Ministro da Suprema Corte. Ou seja, o presidente indica e é referendado pelo Senado ou não. Passa ou não”, respondeu o ex-presidente.

“Era o senhor que indicava os presidentes da Petrobrás?”, perguntou o delegado. “Os diretores da Petrobrás e o presidente?”

“O presidente da Petrobrás foi escolha pessoal minha, o Gabrielli, e primeiro foi o José Eduardo Dutra, escolha pessoal minha. Não teve interferência política, era minha”, disse Lula, referindo-se aos ex-presidentes da estatal José Sérgio Gabrielli e José Eduardo Dutra.

“Certo. E os diretores?”, quis saber o delegado.

“Os diretores, eu acabei de dizer pra você”, respondeu Lula.

“Sim, por isso que eu perguntei ao senhor se a palavra final era sua”, disse o delegado.

“A palavra de mandar para o conselho é minha”, afirmou o ex-presidente.

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