‘Só temos dois destinos, vitória ou martírio’, disse investigado da Hashtag

‘Só temos dois destinos, vitória ou martírio’, disse investigado da Hashtag

Relatório da Polícia Federal aponta mensagens, áudios e imagens de Leonid El Kadre que demonstrariam ‘a intenção’ para ‘treinamento e a realização concomitante de atentados terroristas em solo brasileiro’

Julia Affonso, Mateus Coutinho e Fausto Macedo

16 de setembro de 2016 | 13h08

mensagemhashtag

A Operação Hashtag aponta Leonid El Kadre de Melo (Abu Khalled) e Valdir Pereira da Rocha (Mahmoud Mahmoud) como líderes de ‘organização criminosa terrorista’. Os dois investigados e outros seis foram denunciados pelo Ministério Público Federal por organização terrorista e associação criminosa nesta sexta-feira, 16.

Documento

Relatório da Polícia Federal indica que Leonid El Kadre e Valdir Rocha queriam ‘promover o encontro físico/real dos membros do grupo “Defensores da Sharia” para treinamento físico, intelectual e espiritual com o objetivo da prática de ato terrorista’.

Mensagens, áudios e vídeos de Leonid El Kadre capturados pela Polícia Federal revelam, segundo a Hashtag, ‘a importância de sua figura para a organização, qual seja, a de recrutador e de liderança sobre os demais membros do grupo’.

Em uma sequência de mensagens apreendidas pela PF, Leonid el Kadre afirma. “Sim, é uma ótima ideia, mas veja, seria um gasto individual para cada um. Esse dinheiro gasto neste deslocamento, hospedagem e alimentação já poderia ser empregado de forma direta. Podemos fazer essa reunião online, como agora.”

Leonid El Kadre prossegue. “Então nos reunir. Vou ser bem direito, e que Allah (AzawJal) nos guie e proteja. Já tenho o lugar. Conheço toda a região, onde se adquire as armas. Tudo o que preciso é da disponibilidade de vocês. Não estou prometendo vida boa. É sofrimento, é cansaço, fome, treinamento pesado e operações de risco. Mas é uma excelente forma de fazermos a nossa parte.”

Na última mensagens da sequência destaca pela Federal, Leonid El Kadre afirma. “Só temos dois destinos, vitória ou martírio.”

O relatório da PF aponta ainda para áudios de Leonid em 17 de julho deste ano, quatro dias antes da primeira fase ostensiva da Operação Hashtag. A Federal sustenta que ‘Leonid usa uma conta em nome de seu braço direito Mahmoud (Valdir Pereira) para dar um ultimato ao grupo, mais uma evidência de que Mahmoud e Abu Khaled já se encontravam juntos e em atividade’.

A PF transcreveu no documento dois áudios. “A ideia é a seguinte. Todo mundo deixar o Facebook e as redes sociais. Quem tiver barba vai tirar a barba. Quem frequenta mesquita, vai deixar de frequentar. A ideia agora é migrar e esquecer internet. Quem não fizer isso dentro de 30 dias, o grupo vai estar fechado e “vamo” agir com quem estiver. Se estiver uma só pessoa, vai agir uma só pessoa. Se tiver duas, vai agir duas. Se tiver cinco, irão agir cinco.”

Na mensagem seguinte, Leonid afirma, segundo a Federal. “O que importa é qualidade, não quantidade. Quantas vezes um pequeno grupo de pessoas consegue derrotar um grande grupo de idólatras, incrédulos, traidores? Não importa, a ideia é essa. Todo mundo vai parar de discutir com seus familiares e vizinhos, seja publicamente, pessoalmente, ou seja nas redes sociais. Ninguém vai dar mais pinta de que é defensor do Dawlat al-Islamiyah5, e vai se passar por um cidadão comum. Se possível, se mostrar arrependido, mostrar que mudou de ideia. Parar de falar e começar a agir. Se toda essa falação que temos feito todo esse tempo, se a gente colocar em ações, isso vai dar muitos frutos. Inshallah.”

mensagemhashtag2

A Hashtag chama atenção ainda para as imagens postadas por Leoni el Kadre em sua rede social.

“As imagens postadas por Leonid El Kadre, na sua página na rede social Facebook mostram sua inequívoca disposição em fazer propaganda dos símbolos e das chacinas capitaneadas pelo Estado Islâmico”, aponta a Federal.

“O que estranhamos é o fato de não haver sentido em fazer com que religiosos, que alegam ter se juntado numa rede social para aprender mais sobre a religião muçulmana, sejam orientados a deixar de frequentar mesquitas e abandonar os usos e costumes do islamismo. Qual o real objetivo em não ser identificado como um apoiador do Estado Islâmico (Dawlat al-Islamiyah)? Para a Polícia Federal, aí está demonstrado, efetivamente, a intenção da reunião dos membros do grupo para treinamento e a realização concomitante de atentados terroristas em solo brasileiro.”

Os denunciados, investigados na Operação Hashtag, são Alisson Luan de Oliveira, Leonid El Kadre de Melo, Oziris Moris Lundi dos Santos Azevedo, Israel Pedra Mesquita, Levi Ribeiro Fernandes de Jesus, Hortêncio Yoshitake, Luís Gustavo de Oliveira e Fernando Pinheiro Cabral.

Os oito vão responder pelos crimes de promoção de organização terrorista (artigo 3.º da Lei n.º 13.260/2016 – Lei Antiterrorismo) e associação criminosa (artigo 288 do Código Penal). Alisson Luan de Oliveira, Leonid El Kadre de Melo, Oziris Moris Lundi dos Santos Azevedo, Israel Pedra Mesquita e Hortêncio Yoshitake também são denunciados por incentivo de crianças e adolescentes à prática de atos criminosos (artigo 244 do Estatuto da Criança e Adolescente), e Leonid El Kadre de Melo ainda responde por recrutamento para organização terrorista (artigo 5.º, §1ª, I da Lei n.º 13.260/2016 – Lei Antiterrorismo).

O Ministério Público Federal também pediu a prisão preventiva dos oito denunciados e requereu a aplicação de medidas alternativas aos outros seis alvos da Operação Hashtag até o fim das investigações policiais. Um deles ainda teve o pedido de prisão temporária prorrogado.

Doze dos envolvidos na investigação foram detidos no mês de julho, exatamente duas semanas antes da abertura da Olimpíada do Rio, e encaminhados para a Penitenciária Federal de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, tendo em vista o risco de sua atuação durante os jogos. Outros três foram presos em fases seguintes da mesma investigação.

Tudo o que sabemos sobre:

Operação HashtagOlimpíada 2016

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.