Só reformas evitarão a tempestade perfeita

Só reformas evitarão a tempestade perfeita

José Ricardo Roriz Coelho*

16 de fevereiro de 2021 | 10h10

José Ricardo Roriz Coelho. FOTO: DIVULGAÇÃO

Vivemos um momento grave. O Brasil patina neste início de 2021.

A vacina contra a Covid-19 reacendeu a esperança em dias melhores, com a perspectiva de retomada da economia, mas a imunização coletiva que nos protegerá do coronavírus ainda não está no horizonte.

A recente e triste notícia da saída de mais uma montadora do país, fechando 60 mil postos de trabalho, agrava nossas dificuldades. Desde 2018, ao menos 15 multinacionais de vários setores deixaram o Brasil. É a síntese dos descaminhos percorridos há muitos anos. E ainda não sabemos ao certo se chegamos ao fundo do poço.

A pandemia abarrota os hospitais com doentes e elevou o número de mortes para quase 240 mil. O cenário é de proliferação dos desassistidos, com o fim do auxílio emergencial e de um exército de mais de 14 milhões de desempregados.

A crise potencializada pela pandemia afasta o investimento estrangeiro e acelera a desindustrialização de uma economia marcada pela baixa competitividade. Entre 2000 e 2019, a participação da indústria de transformação encolheu de 13,1% para 10,1% do PIB. Com a pandemia, pela primeira vez, ficou abaixo dos 10%. Nos últimos seis anos, foram fechadas 36,6 mil fábricas no país, ou seja, quase 17 por dia.

Para lidar com a situação, governos estaduais têm aumentado tributos, como se a carga de impostos já não fosse excessiva, intolerável mesmo.

Não é esse o caminho. O momento exige a construção de uma agenda de reformas estruturais que não apenas viabilize a travessia da tormenta, mas ofereça uma perspectiva de crescimento sustentável. Para reaquecer o motor da indústria, do setor de serviços e do comércio, o país precisa formar uma frente para aprovar as reformas que reduzam o chamado “custo Brasil”, equivalente a pouco mais de um quinto do PIB.

A tributária é uma dessas reformas, talvez a mais urgente. A complexidade do sistema tributário brasileiro está estampada no fato de que nossas empresas gastam, em média, 1.500 horas por ano só para computar e pagar impostos. O país está entre os dez piores do mundo no ranking do Banco Mundial que avalia a eficiência dos sistemas tributários. A situação afugenta novos investimentos, sobretudo oriundos do exterior, que acabam sendo canalizados para outros países. O resultado é a insuficiência de recursos que seriam necessários para financiar a incorporação de novas tecnologias e o desenvolvimento da indústria 4.0, fundamental para integrar as cadeias produtivas.

Outras reformas são igualmente necessárias, como a administrativa e a fiscal, sem a qual as contas públicas continuarão pressionadas. Da mesma maneira, é fundamental o país não descuidar das privatizações e da melhora da infraestrutura, para dotar as empresas de maior competitividade.

A guinada do Brasil não se dará por geração espontânea. A mudança de curso depende de um esforço conjunto de todos os atores políticos. Precisamos do engajamento das lideranças do Congresso – agora sob nova gestão -, da iniciativa dos empresários e dos trabalhadores, da compreensão dos vários níveis de governo, da participação da sociedade. A tempestade perfeita está tomando forma, sim, mas ela não é inevitável.

Precisamos voltar a gerar emprego e renda, se quisermos deixar um legado de prosperidade às futuras gerações. O país não pode mais esperar. Não podemos, mais uma vez, ser deixados para trás por falta de condições de competitividade de nossas empresas.

*José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Abiplast, vice-presidente do Ciesp e vice-presidente da Fiesp

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