Só mais três anos

Só mais três anos

José Renato Nalini*

05 de maio de 2022 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DIVULGAÇÃO

A ONU leva a sério a mudança climática gerada pelo aquecimento global. Tanto é que um novo relatório do Painel Intergovernamental sobre o Clima – IPCC, anunciou que a humanidade só tem até 2025 para reduzir as emissões de gases venenosos. É urgente acabar com o desmatamento, reflorestar as áreas dizimadas, investir em energias renováveis e novas tecnologias. Sem isso, o carbono continuará a sua sanha assassina de acabar com qualquer espécie de vida sobre este planeta.

Como durante 2010 a 2019 a emissão cresceu assustadoramente, o remédio seria forçar a queda nestes próximos três anos, para que a humanidade chegasse a 2030 com redução de 43% em relação a 2019.

Alguém acredita que uma sociedade humana imersa em guerra, com políticas armamentistas a incentivar violência, um consumismo irresponsável e um egoísmo galopante possa se compenetrar do perigo que está cada vez mais próximo?

Parece que nos próximos anos teremos mais calor, secas, desertificação, tempestades, inundações, deslizamentos e mortes. Estas virão também por estresses de calor, enfermidades pulmonares e cardíacas, doenças infecciosas, pestes causadas por mosquitos, aumento de refugiados ambientais, miséria e fome.

Tecnologia já existe. Por isso é que a obtenção de energia eólica e solar está muito barata em relação ao momento em que surgiram os primeiros equipamentos utilizados para produzi-las. Outras coisas são praticamente gratuitas: não desmatar. Não custa nada deixar de cortar árvores. Mas aí é preciso que o governo faça a sua parte. Ninguém exige mais do que o mero e estrito cumprimento da Constituição da República, no seu artigo 225.

Talvez a receita seja recorrer à iniciativa privada. A empresa, que sobreviveu a todas as crises, suportou governos imprevisíveis e vorazes no saqueio dos recursos gerados pelo trabalho, para sustentar máquina cada vez maior e mais improdutiva, tem condições de zelar pelos interesses do futuro de maneira muito mais eficiente do que qualquer governo.

A Amazônia reveste uma importância excepcional. É baixíssimo o custo da captura de carbono pela floresta. Mas é preciso que haja imediato freio à grilagem de terras, aos incêndios criminosos, à invasão das áreas indígenas demarcadas e aquelas em fase de demarcação.

A regularização fundiária é uma política estatal que resolveria inúmeros problemas, principalmente a questão das terras públicas, hoje ocupadas por facções criminosas, em atuação acumpliciada com quem deveria zelar pelo interesse comum e não amparar delinquentes.

Preservar nossa cobertura vegetal é a maneira mais eficaz, mais barata, mais eficiente e mais fácil de se reduzir a emissão de CO2. O investimento internacional poderia ser captado para projetos de aproveitamento racional e sustentável do que resta de nossa maior floresta tropical. Aqui, o mundo todo sabe disso, o principal problema é o desmatamento planejado, premeditado e incentivado. Quando os dendroclastas ouviram “soltar a boiada”, isso foi música para seus ouvidos insensíveis e que só se comovem com cifrões.

Se o Parlamento de fato representasse a população, cobraria do governo o cumprimento da normatividade e também a observância dos compromissos assumidos na COP-26, quando o Brasil prometeu cortar em 50% as emissões até 2030. Como advertência para a gravidade da situação, já existe uma série de eventos catastróficos enfrentados principalmente pela população de baixa renda. Mas quando a perspectiva de vida terrena se debilita em virtude de atuação suicida dos próprios seres racionais, acende-se a luz vermelha do perigo extremo. Não é possível continuar como avestruz, com a cabeça enterrada na areia, para fugir ao que já é a melancólica realidade brasileira.

Mais uma vez, os cientistas deram o seu recado. Foram 278 autores do relatório que recebeu mais de 60 mil comentários de revisores especializados, de representantes de governos lúcidos, após análise e menção explícita de mais de 59 mil artigos científicos.

Será que o Brasil vai continuar cego e surdo a esse clamor? Será que de nada valeu a morte de tantas pessoas em virtude de eventos climáticos extremos, gerados pelo aquecimento global?

São só três anos. Mas agora é para valer. Depois disso, não adiantará chorar pela omissão, pela inércia, pela insensibilidade.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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