Só dá Musk

Só dá Musk

José Renato Nalini*

13 de maio de 2022 | 10h00

Elon Musk. FOTO: SUSAN WALSH/AP

O brasileiro é ávido por acompanhar o que acontece no mundo cuja participação lhe é vedada. Explico: a imensa maioria do nosso povo é pobre. Há vinte milhões de irmãos passando fome. Outros cento e vinte milhões com insegurança alimentar. Tantos milhões sem teto, sem educação, sem saúde e desempregados. Ainda assim, que frenesi ao noticiar a compra do Twitter por Elon Musk. Quantas páginas de jornal físico foram dedicadas a isso? O que afeta, de verdade, a vida do homem comum? Talvez seja uma espécie de fuga. Por que pensar nas carências e nas fragilidades? Vamos mergulhar nesse mundo multimilionário, trilhardário, seja lá o que for!

Mas quem é esse Musk?

Ele nasceu em Pretoria, na África do Sul. Seu pai é sul-africano e a mãe canadense. Por isso é que se mudou para o Canadá aos dezessete anos e aos dezenove foi para os Estados Unidos, onde adquiriu a cidadania. É considerado um afro-americano.

É um trabalhador inveterado. Acompanha pessoalmente tudo aquilo que sua Tesla faz. Durante a construção de uma fábrica em Berlim, ele dormiu no chão da fábrica durante quinze dias, para poder supervisionar o trabalho e em solidariedade aos trabalhadores.

Separou-se da primeira mulher exatamente por ser viciado em trabalho. Nisso parece Putin. Quando estive na Rússia, minha guia garantiu que a ex-mulher de Vladimir foi à televisão dizer que o casamento acabara porque o verdadeiro amor de Putin é a Rússia.

Elon Musk não coleciona obras de arte. Repudia luxo e conforto. Consideram-no muito mais focado do que Steve Jobs ou Bill Gates e mais austero do que Warren Buffet.

Formado em economia pela Wharton School of Economics da Universidade da Pensilvânia, em seguida diplomou-se em Física e especializou-se em engenharia de materiais. O faro empresarial o acompanha desde a adolescência. Enquanto cursou Wharton manteve uma discoteca no campus, facultada a todos os estudantes, empregando milhares de dólares para seu funcionamento.

Embora aceito em Stanford para um PhD em Física, preferiu se dedicar aos negócios. Sua Tesla, em termos de capitalização em bolsa, atinge um valor total que supera a soma do que valem juntas a Mercedes, a Volkswagen, a Audi, Porsche, BMW, GM, Ford, Honda, Renault, Stellantis (fusão da Peugeot, Citroen, Fiat e Chrysler). O seu patrimônio é estimado em duzentos e sessenta e cinco bilhões de dólares. Quantia difícil até de imaginar.

Comprou o Twitter por quarenta e quatro bilhões de dólares, por volta de duzentos e dezenove bilhões de reais. Ele pode, como o homem mais rico do planeta, de acordo com a lista de bilionários da Forbes. Para isso, investiu metade do valor da compra em patrimônio pessoal. Ou seja, sua pessoa física desembolsou vinte e um bilhões de dólares, ou cento e cinco bilhões de reais.

Isso assustou um pouco a bolsa, que registrou uma queda de dez por cento das ações da Tesla no pregão seguinte ao anúncio da compra. Os papéis da montadora de carros elétricos – o futuro do planeta, que não pode mais continuar a se utilizar de combustíveis fósseis que envenenam a atmosfera e causam o efeito-estufa – caíram mais de onze por cento, o que representa um prejuízo de cento e vinte e cinco bilhões de dólares do valor do mercado. Ou seja: três vezes o valor da compra do Twitter.

Musk também foi alertado por Bruxelas de que o Twitter deverá cumprir as novas regras digitais da União Europeia ou se sujeitará a pesadas sanções ou até à proibição. Não por acaso, obscurantistas vibraram com a aquisição muskiana, porque acreditam que agora não haverá freios na divulgação de fakenews e maledicências.

O Twitter inovou, desde que criado em 2006. Ele ajudou a Primavera Árabe e outras revoluções no continente africano que resultaram na queda de ditadores na Tunísia e no Egito. O Facebook o ameaçou alcançando 2,6 bilhões de usuários ativos e, em seguida, Instagram e TikTok, ambas com mais de um bilhão de usuários. Embora o Twitter só tenha duzentos milhões de usuários, é a rede mais utilizada pelos políticos.

Há quem sustente que a influência do Twitter é superestimada. Na verdade, a consulta à telinha é pulverizada entre Youtube, Facebook e WhatsApp, além do TikTok. Twitter faz o papel de uma ágora grega: serve para manter aceso um fórum de discussões.

O fato de o mais rico do mundo se endereçar para as redes sociais, ao lado de fabricar o carro que será obrigatório amanhã, é um indicador. Resta acompanhar as mudanças que ele imprimirá ao Twitter. Aguardemos os próximos capítulos. Por enquanto, só dá Musk no noticiário e nas redes.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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