Só coisas boas…

Só coisas boas…

José Renato Nalini*

22 de julho de 2021 | 11h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Chega de desgraceira. Ouvir o que está acontecendo no Brasil de hoje dá ansiedade, taquicardia e insônia. É preciso garimpar na mídia as boas notícias. E elas, – é incrível – existem.

Sou entusiasta das novas tecnologias. Elas vieram para ficar. Já mudaram o mundo. E vão mudar muito mais.

As crianças e jovens têm especial talento em desenvolver aplicativos, programar, encontrar fórmulas novas para o enfrentamento de velhas questões. Sonho com um Brasil repleto de startups, que renovem a energia da população e a faça empreender. A despeito de todas as dificuldades, de um governo que hostiliza a iniciativa privada, que sufoca o empresário, que tem ojeriza ao lucro, a juventude vai encontrando fórmulas de sobrevivência que escapam ao velho padrão do empreguinho para a vida inteira.

Fico entusiasmado com os jovens construtores que exploram novas tendências e percebem que hoje não é tão importante dispor de enormes espaços domésticos, mas o que realmente vale a pena é ter vida de qualidade. Também me encanto pelos jovens que oferecem uma nova perspectiva para os investimentos, que vão competir com as tradicionais instituições financeiras, a ponto de fazê-las se submeterem à reinvenção.

De igual forma, acredito naqueles que pretendem tornar mais humana as cidades. Admiro empresas como Uka, Cidades.co, Next Ride, Projeto Flow, na sua luta para construir urbanismo sustentável em São Paulo, essa insensatez maravilhosa onde todos moramos. A Uka, por exemplo, é uma empresa de projetos de pequenas casas ecológicas. Investiu na bioarquitetura, tendência que está já impregnada da cultura ESG, esse conceito que depende dos jovens para se tornar lema concreto e permanente em todas as esferas da atividade humana.

A Uka viabiliza uma ocupação com o máximo de aproveitamento do espaço e uso sustentável dos ambientes interno e externo. Utiliza-se de técnicas de construção de baixo impacto, os projetos são inspirados no movimento Tiny House, manejo de paisagem funcional e tecnologias verdes. Tudo a um custo viável, para atender àquela geração que preza o ambiente, muito diferente da nossa, que assistiu inerte à destruição da Amazônia e outros biomas. Inclusive o nosso, a agônica Mata Atlântica.

Todas essas novas e jovens empresas estão incubadas no Projeto Hub Green Sampa, um programa de aceleração de negócios da capital. Mais de vinte iniciativas foram selecionadas, para estimular essa juventude empreendedora e pioneira, corajosa, destemida, ávida por transformar – para melhor – o convívio urbano.

O acesso ao Centro de Inovação Vede “Bruno Covas” garante que as ideias sejam partilhadas e possam vir a ser aperfeiçoadas, além de darem origem a novos planos e projetos. Por falar nisso, não vejo o cumprimento da promessa do jovem e saudoso prefeito, de plantar uma árvore para cada vítima da Covid19. Isso deveria ser feito em todas as cidades do Brasil. Documento vivo do sacrifício a que foram submetidas milhões de famílias, diante da incompetência, despreparo ou – pode ser coisa até pior… – do governo federal.

Vejo com alegria a intensificação do uso da bicicleta. Para isso, precisamos garantir segurança ao ciclista. O motorista do veículo mais egoísta e poluente que existe – o automóvel – nem sempre respeita o ciclista, que considera um empecilho para o seu deslocamento à direção do possante veículo, tantas vezes causador de acidentes e de mortes.

É preciso fazer com que São Paulo tenha um projeto como o da Prefeita de Paris, Annie Hidalgo, que propõe deslocamento de quinze minutos como o máximo, entre residência e trabalho, trabalho e lugar de alimentação, trabalho e volta à casa.

Incentivar o hábito de andar a pé também faz a diferença nesta cidade que foi construída para o trânsito. Como tudo aqui chega após já ter sido exaurido no mundo civilizado, vai demorar para a extinção da frota movida a combustão venenosa, para que os veículos sejam exclusivamente os elétricos. Enquanto isso, é preciso ir treinando a cidadania a se locomover com transporte limpo. A mais saudável maneira de se transportar de um lugar a outro é caminhando.

A cidadania está adotando praças. Está recuperando matas ciliares. Está fazendo hortas coletivas. Está recolhendo sementes para fazer viveiros de mudas. Fico feliz e reconfortado quando vejo que há uma PlantVerd a recuperar áreas degradadas e a conceder uma segunda chance, algo que já tentei fazer com o “Começar de Novo”. O reflorestamento é uma urgência para o Brasil que só desmata, incendeia, faz pasto e depois abandona a terra dizimada.

Esses jovens dão aos velhos uma lição: é possível fazer as coisas do jeito certo. Aprimorar este habitat que é o único com o qual podemos contar. Que surjam outras iniciativas e que elas troquem o cenário melancólico da maturidade corrupta por um novo e revigorado Brasil.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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