Só analógicos? Nunca mais!

Só analógicos? Nunca mais!

José Renato Nalini*

20 de agosto de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIELA RAMIRO/ESTADÃO

Queiramos ou não, estamos imersos nas tecnologias da era digital. A resistência de alguns obscurantistas teve de ceder ante à necessidade de manter continuidade de serviços e afazeres durante a pandemia. Dois setores evidenciaram o dogma do não-retorno à era exclusivamente analógica. Falo da Justiça e da educação. Territórios em que militei e continuo a militar, por mais de meio século.

No Judiciário, houve oposição quando, há décadas, se tentou implementar a videoconferência. O governo do Estado adquirira equipamento suficiente para obviar a custosa e perigosa locomoção de encarcerados de alta periculosidade, que tinham de comparecer às audiências no Foro Criminal da Barra Funda.

A logística era difícil e dispendiosa. Até helicópteros eram utilizados, além de inúmeras viaturas da PM. Havia necessidade de observância dos turnos dos policiais, com revezamento que ocupava muitos deles. Isso fazia com que as ruas pudessem ficar, ao menos potencialmente, mais desguarnecidas. Os militares formavam comboio para transporte de presos e isso não é função da gloriosa Polícia Militar.

Não era raro que uma testemunha pudesse faltar, com redesignação da audiência e o retorno do encarcerado a lugares distantes, como Presidente Bernardes, ocasionasse um gasto em dobro, sem qualquer proveito para a realização do justo concreto.

Hoje as audiências são virtuais e o testemunho dos partícipes é a melhor prova de que o sistema funciona. O horário é respeitado, o que nem sempre ocorria nas presenciais. Até a composição consensual do conflito ganhou em qualidade. Cada parte fala na sua vez, o que não acontecia nas sessões presenciais. Veja-se a produtividade do Tribunal de Justiça de São Paulo: foi multiplicada com a pandemia.

Não é o momento de repensar a necessidade de tantos edifícios, de tantos alugueres, de tantas frotas de viaturas, de tanta coisa mais?

E na educação? Foi complicado convencer governo e assembleia de que o celular poderia e deveria ser utilizado em sala de aula para fins pedagógicos. Também se esquecera o Estado de que as concessionárias haviam se comprometido a prover todas as escolas – estatais ou particulares – de conectividade. Depois de lembrá-las, houve a promessa renovada de que o acordo seria cumprido. Resta verificar a que ritmo.

Ainda falta investir bastante em internet de primeira qualidade. Como sempre, os pobres são os mais prejudicados. O Senado aprovou projeto da Câmara que previa aplicação de três bilhões e meio de reais do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações, o chamado Fast, para garantir o acesso dos alunos de escolas públicas à internet. Lamentavelmente, houve um veto presidencial.

Isso não impediu, nem impedirá, que a conectividade avance, apenas com ritmo nem tanto acelerado, como seria desejável. É a diferença entre as escolas mantidas pelo governo e aquelas entregues à iniciativa privada. Aqui, os alunos não só acompanham as aulas e fazem exercícios, numa interatividade benéfica ao processo do aprendizado, como também suscitam questões e chegam a oferecer aplicativos aos mestres, naquela desenvoltura que os millenials têm, como nativos digitais que são.

A internet faz parte definitiva do sistema educacional. Por experiência pessoal, vejo que alunos da Pós-graduação que tinham dificuldade em comparecer a todas as aulas, pois residentes em outros Estados da Federação, hoje participam de todos os encontros.

Estamos falando de um país que tem trezentos milhões de mobiles, mais do que o número de habitantes. A vida digital impregnou a sociedade brasileira e não tem retorno. Ainda que haja paulatino retorno às aulas presenciais, não se justifica deixar de usar a webconferência, a orientação online, a resolução de dúvidas, o contato do mestre com o discípulo valendo-se dessa milagrosa rede digital. O aprendizado ao vivo ganhou bastante com essa disponibilidade do professor e a possibilidade de um contato praticamente privado entre o orientador e o aluno.

Não se pode comparar a riqueza de conteúdo disponibilizado pelo mundo web, com os recursos docentes tradicionais. Por sinal que a geração dos nativos digitais não consegue permanecer numa sala de aula durante horas, para ouvir preleções que não se igualam ao sistema TED. É um dos motivos pelos quais o Ensino Médio tem a maior incidência de evasão.

A missão cometida a todo brasileiro de bom senso e preocupado com a involução do sistema educacional que permaneceu estável no tempo instável e se tornou superado e anacrônico, é investir na capacitação de docentes para que se sirvam do ferramental tecnológico disponível. Só com uma educação consistente, que abrace o mundo digital com todas as forças, é que o Brasil conseguirá resgatar sua imensa dívida para com o ensino, chave de resolução de todos os problemas que nos afligem.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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