Sítio de Atibaia seria ‘surpresa’ para Lula, diz executivo da Odebrecht

Alexandrino Alencar, ligado à empreiteira e delator da Operação Lava Jato, foi interrogado nesta quarta, 7, pela juíza Gabriela Hardt, a sucessora de Sérgio Moro, e relatou encontro que teria ocorrido na antessala da Presidência da República, em dezembro de 2010, com a então primeira dama

Paulo Roberto Netto, Julia Affonso e Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba

08 Novembro 2018 | 05h00

Em depoimento à juíza Gabriela Hardt, substituta de Sérgio Moro na Lava Jato, o executivo Alexandrino Alencar, ligado à Odebrecht e delator, afirmou que a reforma do sítio em Atibaia seria uma ‘surpresa’ para Lula e teria sido solicitada pela ex-primeira-dama, Marisa Letícia, morta em fevereiro de 2017.

Segundo Alencar, ele havia ido a Brasília em 9 de dezembro de 2010 para um evento do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e se encontraria mais tarde com o empresário Emílio Odebrecht, que havia agendado uma reunião com Lula no mesmo dia. Ao chegar no Planalto, segundo afirma, foi abordado por Marisa na antessala da Presidência.

“Conversando com ela, ela disse: ‘Alexandrino, estou precisando de um favor da Odebrecht”, narrou Alencar à juíza Gabriela Hardt. Segundo ele, a ex-primeira-dama relatou dificuldades para cumprir o cronograma da reforma feito pela equipe do Bumlai antes da saída de Lula da presidência, em 31 de dezembro de 2010.

A data, diz o empresário, era importante para o ex-presidente ‘usufruir’ do sítio após deixar o cargo. “Então, ela me fez o pedido [para assumir a reforma], mas falou o seguinte: ‘tem que fazer uma reforma, mas é uma surpresa. O presidente não está sabendo disso, mas tem que terminar em dezembro’. Eu respondi que precisávamos ter autorização e depois veria se é possível”, relatou Alencar.

O delator disse que encaminhou o pedido a Emílio Odebrecht, que deu permissão para a empreiteira tocar a reforma. Alencar diz que foi procurado por Rogério Aurélio, ex-assessor de Lula, e repassou a mediação das obras para Carlos Armando Paschoal, o ‘CAP’, diretor da construtora Norberto Odebrecht em São Paulo.

A reforma do sítio foi inicialmente orçada em R$ 500 mil. Almeida, no entanto, afirmou desconhecer a origem do montante utilizado nas obras. Segundo ele, “foi o Carlos Armando quem buscou” a fonte do dinheiro. “Depois eu soube, por sinal, que houve um complemento adicional de 200 mil”.

À Justiça, Alencar afirmou que se afastou da obra após a mediação, mas continuava a dar retornos à família Odebrecht, incluindo notificar que a obra iria atrasar e ser entregue somente em janeiro de 2011.

O ex-presidente Lula nega enfaticamente ser proprietário do sítio de Atibaia ou que tenha sido beneficiado com propinas da Odebrecht e de outras empreiteiras na forma de obras de reforma e melhorias da propriedade rural.

COM A PALAVRA, A DEFESA DO EX-PRESIDENTE LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA

Os depoimentos prestados hoje (07/11) por Emílio Odebrecht, Marcelo Odebrecht e Alexandrino Alencar reforçaram que é falsa a acusação do Ministério Público contra Lula, buscando vincular contratos da Petrobras com supostas reformas em um sítio situado em Atibaia que pertence a Fernando Bittar e que foi frequentado pelo ex-Presidente.

Marcelo Odebrecht, que é citado expressamente na acusação como sendo a pessoa que teria oferecido vantagens indevidas para Lula interferir em contratos da Petrobras afirmou categoricamente que isso não tem “aderência na realidade”, mesmo sendo delator e tendo recebido benefícios do Ministério Publico para acusar Lula.

Os depoimentos fortaleceram o que sempre foi afirmado pela Defesa de Lula: a narrativa que buscou vincular o ex-Presidente a ilícitos ocorridos no âmbito da Petrobras é totalmente descabida e somente foi construída para submetê-lo a processos e condenações pré-estabelecidas no âmbito da Lava Jato de Curitiba.