Sistemas alimentares continuam negligenciados em debates climáticos, e COP 26 não está projetada para quebrar este padrão

Sistemas alimentares continuam negligenciados em debates climáticos, e COP 26 não está projetada para quebrar este padrão

Anne Rendall e Marta Suplicy*

11 de novembro de 2021 | 05h45

Marta Suplicy. FOTO: DIVULGAÇÃO

Nossa abordagem alimentar global determinará se atingimos o Acordo de Paris. Os sistemas alimentares representam um terço das emissões de gases de efeito estufa, que causam mais de 80% da perda da biodiversidade, e acaba por carecer de nutrir milhões de pessoas.

Ainda assim, os sistemas alimentares permanecem negligenciados nos debates climáticos, e a CQNUMC COP 26 não está projetada para quebrar este padrão.

A importância dos sistemas alimentares abrange diferentes questões, então requer uma abordagem conjunta – desde mudar práticas de cultivo, prover dietas acessíveis e saudáveis e reduzir desperdício alimentício, até garantir empregos seguros no setor alimentar.

Ambos os Conselho Municipal de Dundee e a Cidade de São Paulo estão cientes do impacto decisivo que os sistemas alimentares têm na insegurança nutricional e em comunidades com privação múltipla elevada, e estão comprometidas em enfrentar esses problemas e fortalecer nossa cadeia alimentar a nível subnacional.

Em Dundee, nós estamos lutando para fazer do Reino Unido um lugar que preze pela comida sustentável – UK Sustainable Food Place. O museu de design Victoria & Albert, o desenvolvimento futuro do Projeto Éden e o Instituto James Hutton colocaram Dundee no holofote para visitantes que anseiam experiências gastronômicas de qualidade e nós planejamos trabalhar localmente para obter cadeias logísticas mais sustentáveis e curtas.

Por isso, a comida está integrada no nosso Plano Municipal, comprometendo o gabinete a expandir projetos de crescimento da comunidade, construindo sociedades mais fortes e empoderadas, e dando suporte para projetos focados na pobreza alimentar.

A Estratégia de Cultivo Local de Alimentos trabalha com organizações comunitárias e moradores para habilitar com que eles “plantem suas próprias” oportunidades. Planeja escalar um centro de crescimento para uma área de quatro hectares que proverão comida para projetos via Rede de Insegurança Alimentícia e outras rotas comunitárias.

O centro irá oferecer treinamento e investigar opções nas quais cultivadores de comunidades locais possam ganhar renda pelo excesso de produção – um esquema “Cultive um Cultivador”. E a coleta de resíduos alimentares segregados de propriedades domésticas e comerciais é realizada em toda a cidade para o descarte da Digestão Anaeróbia, produzindo biogás para combustível e digerido para compostagem para os agricultores locais.

Na Cidade de São Paulo, estamos também dando passos para enfrentar o flagelo da perda e desperdício de comida. Historicamente, as 800 feiras semanais descartariam os alimentos não vendidos em aterros. O projeto Feiras e Jardins Sustentáveis coleta e realoca alimentos que podem ser ingeridos e compostos que não, tendo um montante de 2,264 toneladas de insumos salvos do descarte em aterros em 2020.

Nossa outra prioridade é prover uma ligação entre cidades e comunidades rurais. O programa municipal Ligue os Pontos dá suporte para agricultores locais em uma transição local, comprando produtos a 30% de aumento do valor de mercado para que eles possam produzir comida local que fortaleça a saúde do solo, promova biodiversidade, ajude a combater mudanças climáticas e reduza a resiliência dos agricultores em fertilizantes sintéticos e pesticidas. Isso entrega alimentos nutritivos para os cidadãos, apoia a ambição pelas mudanças climáticas e protege florestas, reservas e comunidades localizadas em distritos rurais nas periferias da cidade em expansão urbana.

Estas são somente algumas das políticas alimentícias integradas que nossas cidades implementaram para direcionar a mudança a nível local. Governos subnacionais estão mais perto dos problemas locais, desde nutrição e saúde até desenvolvimento econômico, para uso de terras e gestão de recursos.

Lideranças locais podem significar aprimorar a produção local para aumentar a segurança alimentar e de renda a nível familiar, assim como atenuar o vão rural-urbano, chave em uma cidade grande como São Paulo. Isso pode significar a preservação da diversidade alimentar e costumes. E pode significar ações rápidas para combater a crise.

Ao longo da pandemia da Covid-19, a rede de insegurança alimentar de Dundee iniciou uma resposta por toda a cidade para reunir 24 bases locais e projetos sociais pequenos ao redor do município, com gerentes seniors no Conselho Municipal de Dundee, fornecendo comida para 2 a 3 mil pessoas por semana.

Para trazer políticas alimentícias municipais para a linha de frente do debate climático, a Declaração de Glasgow Alimentação e Clima foi lançada, um compromisso pensado por autoridades subnacionais e locais para acelerar o desenvolvimento de políticas alimentícias integradas e um chamado para a ação de governos nacionais.

Convocada pela IPES-Food e Alimente a Escócia em colaboração com o Conselho Municipal de Glasgow, ICLEI, C40, a Under2 Coalition e uma gama de outros parceiros, a Declaração tem sido assinada por governos subnacionais ao redor de cinco continentes, incluindo Solo (Indonésia), Pittsburgh PA (Estados Unidos), Rio Cross (Nigéria), Dundee (Escócia) e São Paulo (Brasil).

A Declaração de Glasgow celebra essas cidades, regiões e estados subnacionais pioneiros em políticas alimentícias integradas. A maioria das inovações em sistemas alimentares sustentáveis ocorrem neste nível, e a COP 26 deveria reconhecer esses tradicionalmente menos reconhecidos atores como engajados e importantes planejadores de sistemas alimentares sustentáveis.

*Anne Rendall, vereadora, é  chefe do Departamento de Serviços Regionais do Conselho Municipal de Dundee

*Marta Suplicy é secretária municipal de Relações Internacionais de São Paulo e ex-prefeita da cidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.