Sim, Lázaro Ramos, nós precisamos nos importar

Valquiria Souza Teixeira de Andrade*

24 Agosto 2017 | 04h30

Ao assistir no sábado, 19, ao programa Criança Esperança ouvi quando o Lázaro Ramos disse: “Quando não se fazem escolas falta dinheiro para presídios. Um preso custa 13 vezes mais que um estudante”. Realmente, o valor é maior de um encarcerado. Quando os pequeninos não percorrem o caminho deles, perpassando pela educação na sua acepção ampla, sobretudo contemplando valores morais na formação, é significativa a potencialidade de se encontrarem amanhã enclausurados, aumentando a população carcerária e o custo para sociedade, indubitavelmente muito mais alto.

A percepção moral se inicia na infância – certo/errado, bom/mau, respeito/desrespeito – e acompanha todo o desenvolvimento do indivíduo. O saber desconectado de valores morais e da ética deixa de ter efeito benéfico à sociedade, independentemente de a pessoa portar elevado poder financeiro e grau acadêmico dos sistemas superiores de ensino, razão pela qual frequentemente a mídia noticia prisões de pessoas até com grau máximo acadêmico, empresários, funcionários públicos dos mais diversos cargos, parlamentares e tantos outros.

Lógico, o programa foca em criança sem oportunidade de nem sequer frequentar uma escola, criança desprovida de direito e dignidade. Criança que se encontra vulnerável a ser cooptada inclusive por facções criminosas e outros males.

Grande parte dos presos foi criança que não brincou de pique pega e, sim, foi pega pela criminalidade, não pulou corda, mas o muro para fugir da polícia, não brincou em roda gigante e, sim, entrou na roda gigante das facções criminosas.

A sociedade tem de se importar também com essa criança que hoje é um presidiário. Além de enclausurado, sem liberdade, está algemado aos ditames das facções. Ao sopesar, a sociedade verificará ser melhor gastar em educação do que em construção de presídios e em política penitenciária para resgatar um ser e a tranquilidade social.

Realmente, é caro um preso. Pior – quando se verificam as ínfimas chances de não reincidir – é jogar dinheiro fora. Então, já é passada a hora de a sociedade exigir uma política de segurança penitenciária nacional desprovida de ideologias desconectada da realidade presidiária brasileira.

Indubitavelmente, se persistir o cenário atual dos presídios brasileiros dominados por facções criminosas e o Estado continuar tapeando a sociedade no cumprimento do seu dever de promover e tutelar da tranquilidade pública, não haverá valor que valha a pena a despender com presos. Indiscutivelmente continuará havendo crianças correndo não nas praças, mas da polícia; não brincando de morto vivo, mas matando e morrendo; não soltando pipa, mas trabalhando para facções soltando pipa.

Portanto, nós precisamos nos importar, sim, com a educação das crianças na sua concepção ampla; nós precisamos nos importar, sim, com cada preso nos presídios; nós precisamos nos importar, sim, com o Estado gastando recursos com políticas perfunctórias para educação e penitenciárias; nós precisamos nos importar, sim, com os atos de cada um, conscientizando a todos a dar sua parcela de contribuição a fim de possibilitar de forma decisiva a existência de um Brasil melhor.

*Professora de Direito na Unip – Brasília/DF
Delegada de Polícia Federal aposentada
Ex- diretora do sistema Penitenciário Federal

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