Silêncio é uma bênção

Júlia Schütt*

13 Agosto 2018 | 04h00

O silêncio pode ser uma bênção.

Recente matéria publicada por jornalista da BBC News Brasil com o seguinte título: “Maioria dos jovens do RJ entra no tráfico para ajudar a família”1.

Com a palavra, profissionais que há tempo dedicam suas vidas à análise do comportamento criminoso:

Stanton E. Samenow, PH.D, psicólogo clínico que dedicou ao menos 40 anos de sua vida a estudos e pesquisas relacionadas ao comportamento do criminoso, compondo, por três diferentes vezes, forças tarefas convocadas por presidentes dos Estados Unidos que objetivavam, em linhas gerais, tutelar a segurança pública, em sua obra ‘Inside the Criminal Mind’2, destaca que o crime não está limitado a uma particular classe econômica, étnica, racial ou a qualquer outro grupo específico; que a maioria das pessoas de baixa renda não é criminosa, enquanto que muitos afortunados o são. Para o PHD, o móvel do crime não está atrelado à falta de oportunidade, mas, sim, por acreditar o criminoso ser “unique” fazendo, portanto, jus a violar a ordem jurídica.

Por sua vez, o Professor Pery Shikida, PhD em economia e responsável por vasta pesquisa na área da análise econômica do crime dentro dos presídios brasileiros, ao esmiuçar os fundamentos que levam à (desoladora) validação da ideia de que, no Brasil, “o crime (financeiramente) compensa” – eis que é de 95% a chance que o bandido tem de sair impune ao praticar delito de cunho econômico, não titubeia em apontar o móvel principal à escolha pelo crime: “ideia de ganho fácil, cobiça, ambição, ganância e objetivo de manter o status”. Mais de 70% dos presos, ao responder ao questionário do Professor, afirmam que escolheram a “vida fácil” não por dificuldade financeira, mas em razão da leniência com que a mãe Brasil abraça a criminalidade3.

Por fim, o Dr. Marcelo Ferreira Caixeta, médico psiquiatra que por 35 anos de sua vida trabalhou em unidades psiquiátricas forenses hospitalares, refutando a cansada assertiva de que as prisões brasileiras estariam lotadas de “vítimas da sociedade”, frisa: “ANJINHO NA CADEIA? – Olhem, vou dizer a vocês, após 35 anos lidando com esta população, nunca eu vi um “preso injustamente”, nunca vi um “anjinho na cadeia”. Pelo contrário, quando são presos é porque já é tarde demais, já cometeram crimes demais… Se nossa população carcerária cresce não é por causa de “falta de direitos humanos”, pelo contrário. Ela cresce porque o Brasil é o país mais permissivo, mais frouxo do mundo, mais libertino do mundo, mais “pode-fazer-o-que-quiser” do mundo, mais sem as regras e sem a obediência do mundo. É claro que vai ter muito crime mesmo, muito homicídio, muita prisão…”4.

Nada como algumas décadas de experiência contabilizadas pelos três renomados profissionais para desmascarar reiteradas teses de cunho determinista que tendem a “absolver” o criminoso porque ele seria um excluído. Ou seja, o cidadão pobre estaria socioeconomicamente pré-determinado a ser um criminoso.

Intelectuais orgânicos (termo bem trabalhado por Flávio Gordon em seu livro “A corrupção da inteligência”) que, muitas vezes, sequer pisaram num presídio fantasiam uma imagem de bandido “do bem” e, por via de consequência, chancelam este estado de insegurança em que vivemos ao legitimar a ação criminosa a partir de um ideal de socialização da responsabilidade criminal. Esquecem-se, contudo, que as principais vítimas desta marginália, estas sim, são pessoas humildes que, por sua vez, NÃO ROUBAM, NÃO MATAM, NÃO ESTUPRAM e NÃO TRAFICAM.

Como se estes “especialistas em segurança pública”, psicografando Groucho Marx, dissessem à devassada população brasileira: “Vocês vão acreditar nos seus próprios olhos ou em mim?”.

1 – https://epocanegocios.globo.com/Brasil/noticia/2018/07/jovens-do-rj-entram-no-trafico-para-ajudar-familia-e-ganhar-muito-dinheiro.html (acessado em 12/8/2018)

2 – Samenow, Stanton E. Inside the criminal mind. B\D\W\Y – New York, 2014, p.13.

3 – https://www.facebook.com/RobertoMottaPagina/videos/1830891380539679/UzpfSTEwMDAwMDM2MTUwNDEwNzoyMDY0MDc1MzM2OTQ3ODMw/?q=Pery%20Francisco%20Assis%20Shikida%20e%20roberto%20mota (acessado em 11/8/2018)

4 – http://tribunadainternet.com.br/psiquiatra-forense-critica-a-excessiva-indulgencia-com-os-criminosos-no-brasil/ (acessado em 11/8/2018)

*Júlia Schütt
Promotora de Justiça do MPRS – titular da Promotoria de Justiça Especializada do Alegrete e aluna da Escola de Altos Estudos em Ciências Criminais.

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