Shoppings precisam negociar com lojistas e não somente para o período de pandemia

Valquírio Cabral Jr.*

15 de dezembro de 2020 | 04h00

Valquírio Cabral Jr. FOTO: DIVULGAÇÃO

As administradoras de shopping centers precisam despertar para as rápidas mudanças de cenário pós pandemia de coronavírus. Mal haviam retornado aos negócios, os comerciantes voltam a enfrentar problemas com o recrudescimento do vírus e a regressão de boa parte das cidades à fase amarela, em especial o estado de São Paulo. De novo, o comércio sofrerá na carne os efeitos das restrições, enquanto ainda estão discutindo com os shoppings os altos aluguéis e taxas incompatíveis com a realidade atual.

A situação afeta mais os comerciantes, mas também atinge os shoppings, que enfrentam forte vacância e fechamento de lojas. Dados da Abrasce, entidade que representa o setor, mostraram que entre abril e agosto 11 mil estabelecimentos cerraram suas portas nos 577 centros de compras do País. Se no princípio da pandemia houve alguma negociação entre shoppings e lojistas, permitindo uma respirada para os lojistas, com a reabertura do comercio, por 8 horas e depois por 12 horas diárias, as cobranças voltaram, com taxas cheias, embora as vendas continuem apresentando queda de até 40% conforme o segmento. Agora, e em plena época natalina, os horários estão mudando novamente, as medidas de segurança redobram e, sem dúvida, o faturamento do varejo vai se ressentir, por mais forte que seja o apelo da data. Portanto, a negociação entre comércio e shoppings é inevitável e, o mais importante, não deve ficar restrita à pandemia. O mundo é outro e os shoppings não podem mais negociar nos mesmos moldes do passado.

A recuperação dos negócios será gradual e dentro de um formato mais enxuto e redirecionado, seguindo uma tendência de antes da pandemia, com os lojistas buscando novas formas de trabalhar e de reduzir custos, com base no comportamento do consumidor. Com o coronavírus, a fuga dos comerciantes dos shoppings, que já havia começado, tende a se intensificar, pois o lojista percebeu que, a não ser em épocas específicas, como o fim de ano, ou datas tradicionais, como o Dia das Mães, ficar aberto por muitas horas deixou de ser um diferencial de faturamento. Mas embora os clientes tenham perdido o costume de comprar no meio da manhã, depois das 20 horas ou mesmo aos domingos, os shoppings insistem em cobrar pelo horário extenso, aumentando as despesas dos lojistas. A situação não está nada boa, com o custo representando 20% do faturamento das lojas, enquanto o CTO (Custo Total de Ocupação) suportável para viabilizar o negócio é de 10%.

Observe-se um movimento de retorno do varejo para as ruas, capitaneado por redes como Renner e Magazine Luiza e algumas franquias de marca. Se na Europa o modelo “shopping” sempre foi mais restrito e lá os quarteirões têm vida própria, no Brasil seguimos o modelo americano – que sem dúvida tem seus benefícios. Mas o quadro mudou.  Novas lojas de rua, amplas, atrativas e até mais baratas surgem nas médias e grandes cidades brasileiras. E o consumidor aprovou, até por conta do fenômeno dos streamings e das séries – veja-se o sucesso da Netflix, Amazon, Disney e outras – que substituíram os shoppings como entretenimento noturno. Ficar em casa virou uma boa opção.

Assim, é hora de os shoppings se reinventarem, lembrando que seu papel primordial é facilitar as operações dos lojistas para levar mais pessoas às compras. Precisam repensar seu conceito de atrações e entretenimento, cobrar taxas compatíveis com o faturamento das lojas e flexibilizar horários e dias de funcionamento esse seria um resultado ganha x ganha. E afinal, se os consumidores estão se adaptando ao novo modo de vida, os shoppings precisam fazer sua parte se quiserem manter um futuro promissor.

*Valquírio Cabral Jr. é CEO da Valquírio Cabral Consulting, consultoria especializada em vendas para o varejo

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