Shoppings devem mudar para manter sua relevância

Valquírio Cabral Jr.*

01 de dezembro de 2020 | 07h45

Valquírio Cabral Jr. FOTO: DIVULGAÇÃO

As administradoras de shopping centers precisam abrir os olhos, hoje voltados para um passado que não deve retornar tão cedo. Uma parte dos responsáveis pelos shoppings já se deu conta do novo cenário, mas outros, pensando apenas nos ganhos momentâneos, continuam sufocando os lojistas com aluguéis altíssimos, condomínios e taxas incompatíveis com a realidade após a pandemia de coronavírus. Essa é uma atitude negacionista e prejudicial para as duas partes. Se no momento o problema atinge mais os comerciantes, muito em breve afetará também os shoppings, que enfrentam alta vacância e grande número de fechamento de lojas. Dados da Abrasce, entidade que representa o setor, já mostraram que entre abril e agosto 11 mil lojas encerraram suas atividades nos 577 centros de compras do País.  No princípio da pandemia houve negociação entre shoppings e lojistas, o que permitiu um alívio momentâneo para os varejistas. Mas com a reabertura do comércio, primeiro por 8 horas e depois por 12 horas diárias, muitos shoppings voltaram a cobrar taxas integrais, embora as vendas continuem apresentando queda de até 40%, dependendo do segmento.

Verdade que os administradores mais atentos continuam negociando, pois perceberam que a recuperação ocorre muito vagarosamente e que os lojistas estão operando de modo mais enxuto e redirecionado – uma tendência que apontávamos ainda antes da pandemia, com novas formas de trabalhar e um novo comportamento do consumidor. Há algum tempo, por exemplo, começou um movimento de retorno do varejo para as ruas, capitaneado por redes como Renner e Magazine Luiza e algumas franquias de marca, seguindo um modelo mais europeu. Na Europa, onde o shopping sempre foi um formato de negócios mais restrito, os quarteirões têm vida própria, enquanto no Brasil seguimos o modelo americano – e que sem dúvida tem seus méritos. Mas o quadro mudou.   Surgem novas lojas nas ruas e nos bairros das médias e grandes cidades brasileiras. São estabelecimentos amplos, atrativos e mais baratos para os comerciantes, se comparados com os valores cobrados pelos shoppings. E os consumidores aprovaram o sistema, mesmo porque já vinham preferindo fazer as compras no decorrer do dia, em boa parte porque o entretenimento noturno nos shoppings foi substituído pelo fenômeno dos streamings, como Netflix, Amazon e outros, com suas séries de sucesso.  Ficar em casa tornou-se uma boa opção.

Além disso, a pandemia tirou muita gente dos centros de compras e o lojista já percebeu que ficar aberto por tantas horas deixou de ser um diferencial de faturamento. Mas embora a clientela tenha deixado o hábito de comprar no meio da manhã, ou depois das 20 horas, há shoppings insistindo em impor taxas pelo horário extenso, aumentando ainda mais as despesas dos lojistas. A situação não está nada boa, com o custo  representando 20% do faturamento das lojas, enquanto o CTO (Custo Total de Ocupação) suportável para viabilizar o negócio é 10%.

Para aqueles shoppings que ainda não se deram conta do problema, é bom lembrar que o papel primordial desses estabelecimentos é facilitar as operações dos lojistas, até para que estes possam melhorar os preços e levar mais pessoas às compras. Esse seria um resultado “ganha x ganha”, mas é essencial que eles mudem o conceito de atrações e entretenimento, cobrem taxas compatíveis com o faturamento dos comerciantes e flexibilizem horários e dias de funcionamento. Afinal, se os consumidores estão se adaptando ao novo modo de vida, os shoppings precisam fazer sua parte se quiserem continuar com um futuro promissor.

*Valquírio Cabral Jr. é CEO da Valquírio Cabral Consulting

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.