Servidora do Amazonas diz que compra de respiradores é ‘jogo de cartas marcadas’ no governo Wilson Lima

Servidora do Amazonas diz que compra de respiradores é ‘jogo de cartas marcadas’ no governo Wilson Lima

Operação Sangria, deflagrada nesta terça-feira, 30, trouxe à tona suspeitas contra servidores do Estado e o próprio chefe do Executivo, alvo de buscas da Polícia Federal e bloqueio de bens

Rayssa Motta e Fausto Macedo

30 de junho de 2020 | 19h19

Wilson Lima (PSC), governador do Amazonas Foto: Hélvio Romero/Estadão

O Ministério Público Federal (MPF) estima que irregularidades na compra, sem licitação, de respiradores pelo governo do Amazonas causaram prejuízo de cerca de R$ 2 milhões aos cofres públicos e contaram com a participação de pelo menos sete servidores do Estado, incluindo o governador Wilson Lima (PSC) e seu vice, Carlos Alberto Souza de Almeida Filho (PTB).

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Além da dupla à frente do Executivo, a Procuradoria suspeita do envolvimento de funcionários da Secretaria de Saúde, responsável direta pela contratação, em supostas fraudes e superfaturamento no processo de aquisição dos equipamentos fundamentais ao tratamento de pacientes infectados pela covid-19. A hipótese é que, para encobrir a negociação com uma empresa que já havia sido escolhida para integrar o esquema, servidores teriam tentado simular processo para dar aparência de legalidade à contratação e assim despistar órgãos de controle.

Na denúncia encaminhada ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), foram citados a atual chefe da Secretaria de Saúde, Simone Papaiz, que foi presa hoje, e o secretário Executivo João Paulo Marques dos Santos. Os dois teriam tentado dificultar a atuação de entidades que buscavam apurar o contrato.

‘Número 2’ da Saúde do Amazonas, Santos, que chegou a assumir interinamente como titular da pasta após o pedido de demissão do ex-secretário Rodrigo Tobias, teria ficado responsável também por arranjos informais para a contratação da empresa ao lado do secretário adjunto do Fundo Estadual de Saúde, Perseverando da Trindade Garcia. Já a gerente de compras da pasta, Alcineide Figueiredo Pinheiro, teria feito a formalização do procedimento de dispensa de licitação. Ela chegou a chamar o esquema de ‘jogo de cartas marcadas’.

O assessor de comunicação do governo, Jefferson Luiz Rodrigues Coronel, também foi citado pelo MPF suspeito de pressionar uma funcionária para que fosse atestada a regularidade da contratação. Coronel é apontado pelos procuradores como amigo pessoal de Fábio José Antunes Passos, dono da Vineria Adega, importadora de vinhos usada em uma manobra de triangulação para viabilizar venda dos equipamentos com sobrepreço. Segundo o MPF, a Andrade Mansur, fornecedora de insumos médico-hospitalares, que já havia firmado contratos com o Executivo do Amazonas, vendeu os ventiladores à adega por R$ 2,480 milhões. No mesmo dia, a casa de vinhos revendeu os equipamentos ao Estado por R$ 2,976 milhões, ou seja, R$ 496 mil a mais. Após receber valores milionários em sua conta, a adega teria repassado o montante integralmente de volta à fornecedora original, que está em nome de Luciane Zuffo Vargas de Andrade e Renata de Cassia Dias Mansur Silva.

Uma terceira empresa, a Big Tranding e Empreendimentos, de Cristiano da Silva Cordeiro, também é suspeita de participar dos supostos crimes através do financiamento, ‘sem justificativa aparente’, da adega.

Para a procuradoria, o complexo esquema seria comandado pelo governador do Amazonas e conhecido pelo vice, que teria inclusive intermediado o recrutamento de membro para a organização criminosa. “Os fatos ilícitos investigados têm sido praticados sob o comando e orientação do governador do estado do Amazonas, Wilson Lima, o qual detém o domínio completo e final não apenas dos atos relativos à aquisição de respiradores para enfrentamento da pandemia, mas também de todas as demais ações governamentais relacionadas à questão, no bojo das quais atos ilícitos têm sido praticados”, destacou Lindôra no pedido de medidas cautelares.

Os detalhes da investigação foram tornados públicos nesta terça, 30, quando MPF e Polícia Federal deflagraram a Operação Sangria para cumprir 20 mandados de busca e apreensão e outros oito de prisão. Os agentes vasculham a casa do governador e a sede do governo.

A PF chegou a pedir a prisão de Wilson Lima, mas a solicitação foi rejeitada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e pelo STJ, que autorizou, neste momento, somente as buscas.

O estado, que viveu fase crítica no enfrentamento da doença,  já soma mais de 69 mil casos confirmados e 2.782 óbitos, segundo a última atualização do boletim divulgado pelo governo. A capital, Manaus, ganhou repercussão mundial depois que centenas de corpos foram empilhados em valas.

COM A PALAVRA, AS DEFESAS

A reportagem busca contato com as defesas dos citados no inquérito do Ministério Público Federal. O espaço está aberto a manifestação (rayssa.motta@estadao.com).

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