Sérgio Nascimento e as artimanhas da branquitude

Sérgio Nascimento e as artimanhas da branquitude

Monique Rodrigues do Prado*

30 de novembro de 2019 | 10h00

Monique Rodrigues do Prado. FOTO: DIVULGAÇÃO

De quando em quando, a opinião pública elege figuras como Fernando Holiday – vereador eleito pela cidade São Paulo e agora Sérgio Nascimento de Camargo – recém nomeado a presidência da Fundação Palmares, para camuflar a sismo da branquitude e alimentar a ideia de um racha dentro da luta racial brasileira.

A mídia transfere a essas pessoas negras a imagem de traidor, lhe apontam como “racistas” e por fim os colocam na condição de “capitão do mato”, fazendo uma analogia com os negros que capturavam outros negros a serviço dos escravagistas no período da escravização.

Ora, há vários elementos contidos nesses holofotes: o reforço do mito da democracia racial, o desvio da problemática real da questão sócio racial brasileira, a pressuposição de que o negro é uma massa, homogênea, sólida e com pensamento unifocal. Além disso, o enxame em cima dessas figuras serve como massagem ao ego da branquitude, já que assim tem um pouco de sossego para não precisa falar sobre rever os privilégios.

Para avaliar todos esses elementos, é preciso voltar à construção identitária brasileira. Afinal, pode o Brasil ser racista com metade de sua população autodeclarada negra? Os negros são todos iguais entre si, isto é, guardam características físicas, costumes, personalidades e a mesma aderência político-partidária entre si? Pode um negro ser de Direita? Todo negro brasileiro acredita em cota racial como uma das políticas que vislumbram a emancipação racial? O movimento negro está de fato rachado?

A aglomeração de pessoas negras foi uma tecnologia de poder instituída no período de escravização para retirar dos cativos africanos a sua nacionalidade e sua identidade sociocultural, reduzindo-os a coisa e retirando de cada um daqueles indivíduos a sua humanidade para justificar as atrocidades que deixaram seus frutos floresceram através do racismo. Essa homogeneização de povos africanos então chamados de “negros” contrastava com a autodeterminação de uma supremacia branca.

O que parece distante, na verdade é produto da seletividade epistemológica enquanto concepção de mundo. Da mitologia grega de Narciso à literatura inglesa com o Retrato de Dorian Gray, a definição separatista ariana que sustentou o nazismo, a mensagem ecoa com a mesma entonação: quando se trata de grupos étnicos em que negros estão envolvidos, só há espaço para “eles e nós” e de comum acordo concebem a pele branca como espinha dorsal para validar quem se torna sujeito e quem terá o poder estrutural.

Pois bem, mas o que o Sérgio Camargo tem a ver com tudo isso? O apagamento histórico dessas individualidades ancestrais produziu no negro trazido forçadamente a terras brasileiras um auto ódio por ser negro, visto que à luz dessa construção hegemônica racial branca, ser negro significava ser inferior, impotente e parte de uma grande massa.

Esse projeto eugenista à moda brasileira que desumanizou corpos negros constitui-se como fator de manutenção estratégico de poder que se amoldurou como parte da gênese brasileira, tanto assim que a quebra dessa desumanização não aconteceu até hoje.

Essa aristocracia coroou o imaginário de alguns que se esforçam para distanciar-se de sua própria negritude, já que não há vantagens estruturais em ser negro no Brasil. Com isso, se for necessário escolher entre “eles e nós”, alguns preferem abandonar a agenda racial e enxergar-se como pertencente à Supremacia da Branca.

Constantemente, a meritocracia é utilizada para afastar a relevância das cotas raciais como políticas públicas que guardam relação direta com a reparação histórica, isto é, obrigação do Estado Brasileiro redimir-se frente a monstruosidade perpetrada por quase quatrocentos anos as pessoas negras.

Ocorre que, a meritocracia enquanto sistema é um instrumento perigoso, já que distancia ainda mais pessoas que tiveram pouco acesso a oportunidades. Imagine você uma corrida, nessa corrida as pessoas negras estão há 400 anos atrás da largada. Se você é uma pessoa branca, em qual geração de pessoas com graduação você se encontra? A sua mãe ou o seu pai são formados? E seu avô, possui casa na praia ou sítio no interior? Qual é a sua condição econômica e das pessoas que a você se avizinham?

Outro argumento a partir disso, é a crítica das cotas pelo critério racial, já que também existem pessoas brancas pobres, sendo justo o critério das cotas sociais.

Ora, esse é um argumento fraco, já que a Lei 12.711 de 2012 de cotas no Ensino Superior fundamentou o seu critério não só para pessoas negras, como também para atingir pessoas pobres, vez que estudantes advindos de escolas públicas podem utilizar esta política afirmativa.

Longe de resumir-se à figuras alienadas eleitas pelo senso comum para supor eventual rachadura na agenda do movimento negro, a Fundação Palmares luta há mais de 30 anos contra o racismo no Brasil, protegendo a comunidade remanescentes de quilombola desde a demarcação de terras aos direitos e garantias dessas pessoas, além de promover a preservação da cultura afro-brasileira.

Em suma, o movimento negro e antirracista rechaça a postura de pessoas que visam engessar a ascensão de pessoas negras, ainda que elas mesmas sejam de igual etnia, mas entende que posturas como a noticiada não podem diminuir a responsabilidade da descolonização do pensamento surfando na onda de produzir chacotas, omitindo-se das mais profundas questões enraizadas na sociedade brasileira. Além do mais, o legado da Fundação Palmares não pode ser abreviado a esse episódio.

*Monique Rodrigues do Prado, advogada, palestrante e facilitadora no Instituto Gaio, integrante do corpo jurídico de advogados voluntários da Educafro. Cofundadora do Afronta Coletivo e participante do Comitê de Igualdade Racial do Grupo Mulheres do Brasil

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