Será que vale a pena?

Será que vale a pena?

José Renato Nalini*

17 de novembro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Um dos raros consensos que a comunidade científica obteve nos últimos anos é a certeza de que o uso dos combustíveis fósseis tem de acabar. Ele é o vilão emissor de gases venenosos do efeito estufa, causador do aquecimento global e das mudanças climáticas. Estas ameaçam a continuidade da vida no planeta, embora os céticos pagos pelas empresas interessadas e os fanáticos fundamentalistas continuem a negar o perigo.

Quais as opções aos combustíveis fósseis? Energias limpas. Hídrica, eólica, da biomassa. Até das marés, conforme se falou em épocas passadas. Mas será a energia nuclear uma das formas “limpas”? Poderia ser considerada matriz energética ‘verde’?

É o que se discute na Comunidade Europeia. A França puxa o comboio de dez países que pedem que a energia nuclear seja incluída entre as fontes priorizadas e incentivadas para a transição rumo à neutralidade climática.

A energia nuclear é utilizada na França, Alemanha, Suécia, Espanha, Bélgica, República Tcheca, Finlândia, Bulgária, Hungria, Eslováquia, Romênia, Eslovênia e Holanda. O funcionamento das usinas nucleares se dá mediante a fissão nuclear, com a divisão do átomo em partículas menores, que liberam energia. Aponta-se como vantagem, a baixa emissão de gases tóxicos. Necessita de menos área, comparada àquela utilizada por usinas eólicas e solares. Não depende condições atmosféricas e tem custo menor de geração.

Em compensação, há riscos de acidentes. Isso ocorreu em Fukushima, por causa do terremoto e tsunami que atingiram o Japão em 2011. Número indefinido de pessoas apresentou sequelas mentais e físicas, inclusive câncer. Antes disso, em 1986, o acidente de Tchernobil, na então URSS. A explosão matou duas pessoas de imediato, deixou 136 feridos. Destes, 28 morreram nas semanas seguintes. Mais de cem mortes são atribuídas à contaminação radioativa. Mais de quatro mil mortes projetadas a longo prazo.

Outro problema sério é a deposição dos resíduos. Um perigosíssimo lixo nuclear, bastante radioativo, que permanece tóxico por séculos. Trabalha com um produto finito, o urânio. Considera-se que ele ainda exista para mais setenta anos, superior ao petróleo, que tem mais trinta anos para – felizmente – acabar. A construção de uma usina nuclear é caríssima. Há uma poluição indireta, no processo de mineração e de enriquecimento de urânio. A mineração a céu aberto causa erosão, polui água, deixa partículas radioativas. Exige muito em segurança estratégica.

De uma forma bastante singela, pessoalmente eu optaria pelo princípio da precaução. Aquilo que tem riscos não administráveis, precisa ser evitado. Mas sabe-se que os Estados não pensam assim. Será que vale a pena continuar a insistir na energia nuclear?

As usinas nucleares no Brasil têm uma história tumultuada. É só consultar o que se escreveu sobre Angra. Desde as dúvidas quanto à contratação, a dúvida perene ou a suspeita sobre a ilicitude no processo de aquisição da tecnologia alemã, até às falhas na construção.

Não se tem falado a respeito do êxito dessa alternativa. A região de Angra dos Reis é propícia ao turismo. Este seria a indústria a ser adequadamente explorada no Brasil, que já não pode competir com a industrialização da Quarta Revolução. Por que poluir uma região tão bonita – o litoral brasileiro entre Rio de Janeiro e São Paulo é, seguramente, uma das maravilhas do mundo – com um fator de permanente risco, agravado pela convicção de que o Brasil não é o campeão na edificação de estruturas absolutamente imunes a qualquer ocorrência nefasta.

Numa sociedade periférica, esta que assiste inerte à destruição de seu maior tesouro, a mata nativa, exterminando a última grande floresta tropical do planeta, temas como este passam desapercebidos. Basta considerar que há mais de vinte milhões de brasileiros passando fome e tantos outros milhões convencidos de que vão estar na mesma situação dentro em pouco. Acrescente-se o número de desempregados, os sem moradia, os sem saneamento básico, sem saúde e sem educação e compreender-se-á porque a discussão da energia nuclear é algo que passa ao largo da busca das necessidades primárias – comida, teto, trabalho – , representando um tema inóspito para os que não conseguem obter o mínimo existencial para uma sobrevivência digna.

Porém, no mundo civilizado, a população está participando ativamente das discussões. Manifestando-se contra – e também a favor – da concessão do título “verde” para a energia nuclear. Tudo ainda indefinido, vamos assistir para ver como acaba. Continuo a questionar se realmente vale a pena insistir em algo que ainda não se conhece bem. E o que se conhece é de assustar.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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