Será que Putin joga xadrez?

Será que Putin joga xadrez?

Fabio Astrauskas*

07 de março de 2022 | 13h40

Fábio Astrauskas. FOTO: DIVULGAÇÃO

A análise de um quadro mais amplo dos desdobramentos da Guerra na Ucrânia é tão complexa que fica difícil organizar o pensamento. Assim, imagino-me analisando um jogo de xadrez: os três ou quatro movimentos iniciais são bastante previsíveis, mas daí para frente as alternativas tornam-se tantas que cada jogo é único. Aliás, Rússia e Ucrânia estão entre os países com maior número de enxadristas Grandes Mestres mas a disputa não está restrita aos movimentos individuais dos oponentes. Há muito mais interessados e muitas peças irão adquirir vontade própria durante a disputa.

Os interesses mencionados até agora são variados e defendidos com vigor, mediante argumentos lógicos, sejam eles pragmáticos, ideológicos, econômicos, pacifistas ou militares. Como se, numa partida de xadrez, você adotasse uma abertura diferente dependendo de seu gosto e conhecimento: Inglesa, Siciliana, Ruy Lopez, Gambito da Rainha, Nimzo-índia e assim vai…

Nos debates em torno do tema, ouço “aberturas” do tipo: Imperialismo Americano x Aliança Sino-Russa, impactos econômicos nas commodities, habilidades estratégicas de Putin, calamidade humanitária com milhões de refugiados, necessidade de resposta firme da OTAN, combate ao neonazismo, posicionamento ESG das grandes corporações, Nova Ordem Mundial e a lista segue. São argumentos retóricos que defendem sempre o posicionamento do interessado, seja qual for, de apoio, repúdio ou neutralidade.

Mas parece que o medo da Europa em revisitar uma guerra mais ampla é o que está ditando os próximos lances. Aparentemente, os europeus não estão dispostos a reviver os erros de não impor limites imediatos ao ditador de plantão (antes Napoleão, depois Hitler e agora Putin). Aprenderam, depois de milhões de mortos, dores, traumas e prejuízos, que deixar que a expansão territorial por parte de ditadores aconteça sem freios, leva à Guerra Total. Assim, parece que as decisões principais do ocidente, embora sejam predominantemente de sanções econômicas, são motivadas por sentimentos atávicos de intolerância ao uso militar dentro do continente europeu.

As consequências da guerra serão proporcionais à sua duração. E parece que vai demorar. Neste momento, Putin está concentrado em realizar seu objetivo imediato que é anexar a Ucrânia. Acreditava de início que isso lhe daria cacife para manter a hegemonia russa na região e avançar uma casa no jogo de poder internacional. Acostumado ao jogo, já havia movido tranquilamente peões na direção de Chechênia, Belarus e Criméia. A Ucrânia é uma peça maior e Putin terá mais dificuldade, mas conseguirá tomar.

Putin enfrenta agora ainda um segundo desafio: lidar com a surpreendente reação mundial. Putin e o mundo todo pensavam estar acostumados a lidar com a “guerra econômica”. Boicotes e sanções pontuais estão no cardápio estratégico das grandes potências há muito tempo. As contramedidas russas de corte de gás e petróleo sempre atenuaram as tentativas. Porém, uma novidade está mudando o jogo, tal qual o peão que atinge a última casa e se torna uma peça mais forte. Este peão coroado atende agora pelo nome de ESG. Tão logo a invasão da Ucrânia começou, não só governos, mas principalmente grandes corporações se movimentaram para retaliar a Rússia. Cancelaram serviços e contratos, venderam participações e bloquearam contas e acessos logísticos. Os efeitos sobre a economia e a sociedade russa serão devastadores se perdurarem. Nenhum país ainda experimentou tamanho banimento. Isto torna qualquer previsão de longo prazo uma mera especulação.

Em breve terá início o terceiro desafio de Putin, que será lidar com a insatisfação interna, doméstica. As classes média e alta russa moldaram-se rapidamente ao estilo capitalista tão logo houve o desmanche da União Soviética.  Fora de Moscou, Putin ainda pode imaginar uma resistência longa aos boicotes econômicos. Afinal, outros países resistem por anos. Em Moscou, no entanto, a pressão popular será forte. E seu povo não tem uma tradição pacífica para lidar com escassez de bens e serviços. Quando este momento chegar, não será mais um jogo de peões, mas sim de cavalos, bispos e torres, ou ainda: militares, igreja e corporações. Alguns defendendo o rei, outros não.

Finalmente, chegará o momento crucial de decidir pelo sacrifício da Rainha e seguir jogando ou capitular. A ameaça nuclear paira sobre nossas cabeças há quase 80 anos, desde Hiroshima. Durante a guerra fria, serviu muitas vezes para impedir uma escalada ao terror em grande escala. A bomba nuclear foi durante anos a peça mais forte, a rainha do jogo das nações. Em 1997, Garry Kasparov, um dos maiores enxadristas de todos os tempos, compreendeu, embora relutante, que a máquina havia se desenvolvido de tal maneira, que seria impossível para um ser humano derrotá-la num jogo de xadrez. De lá para cá, tal compreensão foi ainda mais longe e acredita-se que mesmo com uma combinação de jogadas comparável com o número de átomos do universo, uma série de partidas entre dois supercomputadores terminará sempre empatada. Ou seja, não haverá um vencedor, assim como numa eventual guerra nuclear. Por que então jogar um jogo em que não se pode vencer mas apenas perder?

Putin provavelmente tomará a Ucrânia e perderá a guerra. Quando isso acontecer, o dilema de Putin será seguir o destino de ditadores como Napoleão, capturado e exilado ou o destino de ditadores como Hitler, enlouquecido e autodestrutivo. Numa partida entre Grandes Mestres, o resultado final dificilmente é um xeque-mate. O usual é que o oponente em desvantagem abandone antes de perder. O xeque-mate envolve o gesto clássico de tombar o Rei, algo em geral, humilhante. Aflito, assisto a tudo acompanhando atentamente os desdobramentos da guerra e do conflito entre Rússia e oitenta por cento das nações mundiais. Não me sinto totalmente preparado ainda para arriscar um palpite de longo prazo. Neste momento, tudo que espero é que Putin seja um excelente jogador de xadrez e que abandone o jogo mais adiante. Para que eu e toda a humanidade tenhamos a chance de seguir existindo no longo prazo.

*Fabio Astrauskas é economista, professor do Insper e CEO da Siegen Consultoria Empresarial

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