Será que o frete é realmente o vilão da inflação?

Será que o frete é realmente o vilão da inflação?

Jarlon Nogueira*

08 de outubro de 2021 | 09h30

FOTO: FELIPE RAU/ESTADÃO

É algo bem comum, já há alguns anos, que o frete seja considerado um dos principais causadores do crescimento da inflação no Brasil – principalmente quando ligado aos alimentos e bens de consumo.

Mas será que ele realmente é um vilão e responsável pelo aumento atual da inflação? Penso que não.

O Brasil foi um dos países em que as transformações nos hábitos de consumo durante a pandemia mais afetaram o custo de vida das famílias. Segundo a escola de negócios da Universidade de Harvard, entre os 18 países pesquisados, o Brasil foi o que teve a maior diferença na chamada ‘inflação da Covid’. A causa principal foi o grande aumento do preço dos alimentos.

E essa não é uma novidade para quem vai ao supermercado. A prévia da inflação para setembro é a maior desde 1994, chegando a 10,05%, segundo o IBGE. O aumento nas contas de luz, no preço da carne e dos aluguéis foram alguns dos responsáveis.

Quer saber mais quem foi um grande vilão? Os combustíveis! Apenas nos primeiros seis meses de 2021 apenas o etanol aumentou 35,71%, seguido do GNV (27,34%), gasolina (25,56%) e diesel (24,58%). Os dados são do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo).

Para quem tem um veículo de passeio, é mais fácil deixar o carro ou a moto em casa e se deslocar de transporte público. Mas e quem depende de um meio de transporte para trabalhar, como os caminhoneiros e transportadoras?

O preço do barril de petróleo já chegou ao nível de antes da pandemia e a previsão é que não haja mais altas nos próximos meses. Mas a redução nas bombas ainda deve demorar por uma série de outros fatores.

Mas ainda há um pesadelo por vir: os valores dos pedágios, que esse ano apenas nas praças de São Paulo cresceram uma média de 8% e podem ficar ainda mais caros. A ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) avalia um novo aumento para as rodovias federais concedidas.

O motivo? Compensar a perda de receita das concessionárias com a diminuição do movimento durante os meses de março a dezembro de 2020, durante a pandemia. Sim, todos poderão pagar (ainda mais) pelos ‘prejuízos’ de companhias gigantescas. Isso porque os pedágios podem ser chamados de tudo, menos de baratos.

Uma pesquisa da associação NTC & Logística revelou que o frete rodoviário de cargas no Brasil encerrou o primeiro semestre de 2021 com uma defasagem de 18,7% – o que representa uma alta de quase 5% quando comparado a dezembro do ano passado.

O INCT (Índice Nacional do Custo de Transporte de Carga), também apurado pela NTC & Logística para as cargas fracionadas, teve alta ainda maior: 22,32%. O maior número em 26 anos. Já o índice para as cargas lotação foi 24,98%, a maior variação desde o início das medições há 18 anos.

A razão já era esperada: o aumento da inflação puxada pelos combustíveis. E nem o reajuste dos fretes costumeiros do início do ano – que em 2021 foi de só 1,3% em média – não chegou nem perto de absorver as perdas, até porque o diesel continuou a subir.

O preço dos veículos e da mão de obra também foram apontados. Os valores cresceram em média 22% e 8%, respectivamente.

E, com todas essas ‘boas notícias’, caminhoneiros e transportadores sentem, literalmente, o peso de carregar o Brasil nas costas. As margens de lucro são mínimas, sendo que alguns estão a ponto de ‘pagar para trabalhar’, já que não podem negar fretes simplesmente porque precisam colocar comida na mesa.

A grande greve dos caminhoneiros de 2018 chamou a atenção de todos para a causa desses profissionais e empresas. Antes que se chegue, novamente, a uma situação dessas, é necessário repensar o valor do frete e toda a cadeia.

E agora, sua visão sobre quem é o “vilão da inflação” mudou?

*Jarlon Nogueira, CEO da AgregaLog

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