Ser rico em um país pobre ou ser pobre em um país rico?

Ser rico em um país pobre ou ser pobre em um país rico?

É onde a luta contra a desigualdade dá lugar ao respeito à liberdade econômica que a magia acontece

Dimitri Libman*

05 de setembro de 2021 | 06h30

Dimitri Libman. FOTO: DIVULGAÇÃO

Sou filho de pai francês. Já foram inúmeras as discussões entre nós sobre os diferentes estilos de vida e rumos políticos que tomaram os dois países. Mas uma me marcou…

Voltei para a França porque prefiro ser pobre em um país rico do que ser rico em um país pobre, provocou ele. Ser rico em um país pobre pode ser visto como um privilégio. De certa forma, o dinheiro compra a saúde, a segurança, a educação e o bem-estar. A sensação é de superioridade. Do outro lado, ainda que relativamente pobre, em um país rico se tem uma certa paz de espírito proporcionada pela estabilidade e qualidade dos serviços – do médico à operadora de celular, acessíveis a quase todos.

Há quem enxergue no empreendedor um ser ganancioso, explorador, que deve ser taxado e super-regulado. Falta lembrar-se de que cada um desses seres arrisca seu tempo e dinheiro para resolver problemas de outras pessoas. A geração de riqueza e consequente desenvolvimento coletivo é o principal produto dessas trocas, estimuladas por economias livres e pulsantes.

Esse ano, foi aprovado o marco legal das startups. Faz pensar quem repete incansavelmente que o pobre não tem oportunidades e a ele destina o assistencialismo estatal, uma vez que está justamente na desburocratização e maior acesso ao capital a lógica desse importante passo rumo à liberdade do microempresário em potencial. Pouco antes, aprovamos também o novo marco legal do saneamento básico. Em poucas palavras, ele abre espaço para que empresas privadas briguem em pé de igualdade com empresas públicas pelo fornecimento de água e esgoto, que estavam totalmente nas mãos de estatais e, ainda hoje, atendem apenas metade dos brasileiros. Difícil entender a resistência dos que prezam pela concentração estatal, renunciando aos incentivos gerados pela livre concorrência. Não muito importa se é uma empresa pública ou privada que nos atenderá; importante mesmo é que exista um ambiente propício para que as mais qualificadas e eficientes participem do jogo. E é aí onde mais diferem os países ricos dos países pobres… Ao impedir a inovação e a competição pela míope visão de que o empreendedor explora o povo, depositamos nas mãos de políticos o nosso capital monetário e intelectual, e isso retorna a nós na forma das mais nefastas consequências: corrupção, serviços de péssima qualidade, preços ou impostos exorbitantes, baixos salários, desemprego e, no limite, demandas não atendidas.

“Ah, mas não se pode comparar um velho país do continente europeu com um jovem país sul-americano”. Aos que responsabilizam a idade ou mesmo a posição geográfica pelas dificuldades brasileiras, vale lembrar que Chile, Austrália, Nova Zelândia, Israel, Singapura, Estados Unidos e Canadá são tão ou ainda mais jovens que o Brasil. Em comum, o alto nível de liberdade econômica. É, inclusive, em países jovens e não plenamente desenvolvidos onde deveria ser dada ainda maior importância a ela, uma vez que neles se faz preciso desenvolver as bases da economia de forma acelerada. Isso explica o porquê da França estar atrás de todos os citados no último relatório do Index of Economic Freedom, publicado pela Heritage Foundation e The Wall Street Journal.

Pode parecer contraintuitivo, mas ao desimpedir a concorrência, a redução da pobreza é uma consequência. Muito mais impactante do que lutar diretamente contra a desigualdade, é ajudar a construir um país que permita extrair o melhor que cada um de nós tem a oferecer. Assim, enquanto se abre um leque de oportunidades, somos todos servidos com mais qualidade e a preços mais justos. De bônus, vem a realização pessoal em massa, conquistada ao valorizar, de fato, nossas diferenças.

Ao longo dos anos, mudei de opinião diante desse dilema. Mas continuo por aqui, com a esperança de conseguirmos nos livrar desse ciclo vicioso que nos amarra junto ao infeliz título de “país pobre”.

Aos amantes de um bom livro e interessados no assunto, deixo uma sugestão de leitura: Why Nations Fail (Por que as nações fracassam), de Daron Acemoglu e James Robinson. Editora Crown.

*Dimitri Libman é associado ao IFL-SP. Administrador de empresas pela Fundação Armando Álvares Penteado, é fundador da OSLO Mobilidade Elétrica

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