Ser mãe é um ato político

Ser mãe é um ato político

Marina Bragante*

10 de outubro de 2020 | 11h00

Marina Bragante. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Ser mãe é sentir culpa. Essa é uma frase bem conhecida das mães. Para mim isso não aconteceu de imediato. Sempre achei que por ter trigêmeos, tinha clareza de que não seria a mãe perfeita que a gente quer ser. Eu sempre soube que não daria conta de tudo sozinha (nem só com meu marido). Afinal, eram dois seios e três bocas.

Assim, os meses foram passando e a minha rede de apoio cada vez mais presente em casa ajudando na educação, no cuidado e no carinho com as crianças. Durante um ano trabalhei feliz, sem sentir a tão conhecida culpa. Sabia que eles estavam se divertindo, cada dia com um adulto diferente, aprendendo muito. Quando eu chegava em casa, era 100% deles.

Pois é, como você leitora pode imaginar…isso tudo mudou com a quarentena.

De um dia pro outro os 10 adultos (uma babá, minha mãe, meu pai, tias, sogra, sogro, primas) que me ajudavam durante a semana ficaram cada um na sua casa. De um dia pro outro eu e meu marido tivemos que nos organizar para passar 24 horas por dia, 7 dias por semana…e MUITAS semanas “só nós cinco”.

Para mim, o primeiro mês de pandemia foi um segundo puerpério. Sabe aquele tempo que você está feliz de estar com sua filha/filho, vive morta de cansaço, querendo aproveitar cada segundo com a cria, e não tem ideia como você vai dar conta de tudo? Foi exatamente isso que senti. Tudo de novo.

Eu estava trabalhando, mas com uma chefe mulher, mãe, defensora da pauta da primeira infância e, portanto, conhecedora do investimento que todas nós temos para cuidar bem das crianças.

Agora, coloca nessa equação uma vontade louca de fazer a nossa cidade um lugar melhor para os nossos filhos. Um lugar menos desigual e com um governo que consiga entender com mais clareza as demandas dos cidadãos e atendê-las de forma mais eficiente.

Pronto! Chegou a minha vez de viver a culpa! Sou pré-candidata a vereadora de São Paulo, na pandemia e mãe de trigêmeos!

Eu, assim como muitas mães, nunca estive tanto tempo dentro de casa com meus filhos e, ao mesmo tempo, tão distante deles. Por um lado, as reuniões tem sido quase todas online, feitas de casa, e isso me faz ficar perto dos meus filhos. Por outro, é uma rotina de reuniões e calls ao mesmo tempo em que cozinho, ajudo com atividades pedagógicas, cuido, dou colo. O tempo que era 100% deles quase não existe mais.

Mas eu sei que essa situação não é exclusividade minha. Várias candidatas mães passam pela mesma coisa e essas dificuldades transformam a eleição de mulheres mães neste ano, um desafio enorme! As cotas eleitorais para mulheres nos partidos foram um primeiro passo, mas precisamos avançar, não só com leis, mas culturalmente, para que a maternidade deixe de ser um empecilho para a carreira profissional e política das mulheres que tanto precisamos em posições de comando.

Trabalho com política há 15 anos e já participei de muitas campanhas vencedoras. Eu sei bem o que é necessário fazer para conseguir a quantidade de votos para ser eleita. Mas, compartilho com vocês, que no dia que decidi encarar mais essa, prometi para a Lorena, a Olivia e o Lucas que faria política da forma que acredito.

Política que cabe uma manhã inteira com os três aqui em casa brincando na bacia com água. Política que cabe, quando for seguro, levar as crianças para as reuniões e não ficar constrangida por serem crianças e quererem brincar e correr. Política que tem claro a necessidade de investir na primeira infância para assegurar o desenvolvimento integral de todas as nossas crianças. Política que cabe oferecer ajuda e um ombro para outras candidatas mães que, assim como eu, precisam desabafar ou precisam deixar as crianças por um tempo com alguém para poderem se concentrar.

Ser mãe é um ato político. No meu caso, esse ato vem também carregado do compromisso de transformar a minha culpa, a minha energia e os meus privilégios em potência compartilhada com outras mães. Vamos juntas?

É impossível não parar e pensar em como nossa sociedade é estruturada, afinal, essa culpa é uma criação social e não deveríamos de nenhuma forma sentir isso! Faltam políticas públicas e mudanças culturais para que mulheres mães possam concorrer, independente se estão grávidas ou com filhos pequenos, nas mesmas condições que homens que são pais.

O meu projeto de vida incluía ser mãe. A decisão foi tomada aos 35 anos, mas eu não conseguia engravidar. Após muitas tentativas frustradas, voltei a focar nos estudos e trabalho. E foi durante os meu curso em Harvard, quando ganhei uma bolsa de estudos, que engravidei. De trigêmeos.

*Marina Bragante foi chefe de gabinete da deputada estadual de São Paulo pela Rede Marina Helou, coordenadora executiva do gabinete de Floriano Pesaro (PSDB-SP), secretária adjunta de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo (2016 a 2017), trabalhou na CMSP (Câmara Municipal de São Paulo) por seis anos e na Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento do município de São Paulo. É líder do movimento Vamos Juntas, líder Raps (Rede de Ação Política para a Sustentabilidade) e foi aluna do Renova BR

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