Sequelas da covid-19 são uma segunda pandemia

Sequelas da covid-19 são uma segunda pandemia

Jorge Alberto Costa e Silva*

12 de maio de 2021 | 08h30

Jorge Alberto Costa e Silva. FOTO: DIVULGAÇÃO

O Brasil acompanha de perto o avanço da vacinação contra a Covid-19. Ciente de que só poderá vislumbrar o fim da pandemia quando parcela considerável da população estiver imunizada, a sociedade, com razão, deposita sua esperança nas vacinas.

Porém, é preciso estar atento a outro grave problema de saúde pública que começa a ganhar forma, uma crise silenciosa contra a qual nenhum programa de vacinação poderá surtir efeito: o enorme contingente de pessoas acometidas por sequelas da Covid-19.

Se não encararmos agora esse problema, planejando o enfrentamento de tais mazelas pelos próximos meses ou anos, talvez fique tarde demais.

A medicina ainda não consegue precisar quais sequelas podem acometer pacientes recuperados de uma infecção pelo SARS-Cov-2. Trata-se, afinal, de uma doença nova, com pouco mais de um ano de existência. Mas as poucas informações que temos são suficientes para indicar uma tendência preocupante. Um estudo publicado recentemente pela revista Nature, envolvendo mais de 87 mil indivíduos, concluiu que quase todos os sistemas do corpo humano podem ser afetados pela Covid-19.

As sequelas mais evidentes são aquelas que atingem o trato respiratório. É razoavelmente conhecido o fato de que pacientes recuperados da Covid-19 podem apresentar fadiga constante ou insuficiência respiratória, dada a maneira como o vírus compromete o funcionamento saudável dos pulmões. Em casos mais graves, pacientes continuam dependentes de cilindros de oxigênio mesmo após se curarem da infecção original.

Mas outros órgãos, como os rins, coração e cérebro, também podem ser afetados, sendo que o último tem ocorrência de danos graves de encefalite. Há relatos de dores musculares ou ósseas, problemas cardiovasculares, diarreia, insuficiência renal, descontrole metabólico (levando à diabetes ou ao aumento do colesterol) e diversas outras mazelas. Há também sequelas psicológicas, como a depressão, ou neurológicas, que incluem confusão mental e perda de memória. Esse conjunto de problemas tem sido chamado, provisoriamente, de “síndrome pós-Covid”.

Há, por fim, consequências indiretas, que afetam especialmente os acometidos pela forma grave da doença. Pacientes submetidos a períodos prolongados de intubação precisam enfrentar meses de fisioterapia, por exemplo, para tentar recuperar plenamente a mobilidade e as funções motoras.

Esse panorama seria suficiente para acender um sinal de alerta para as autoridades de saúde. Mas há um agravante: ninguém sabe ao certo por quanto tempo duram essas sequelas. Meses, anos, décadas? Talvez estejamos diante de uma geração inteira cuja saúde foi permanentemente comprometida durante a pandemia.

A lição que se tira disso é clara: o país precisa urgentemente preparar seu sistema de saúde para acolher aqueles que sobreviveram à Covid-19. Pelos próximos meses, possivelmente anos, precisaremos contratar profissionais, investir mais em programas de acompanhamento de saúde e atendimento domiciliar, produzir uma gama maior de tratamentos e medicamentos a preços acessíveis para tratar enfermidades variadas.

Temos a vantagem de enxergar o problema se avolumando no horizonte antes de sentir plenamente seu impacto. Isso nos dá uma preciosa janela de tempo, que pode ser usada para planejar adequadamente como enfrentaremos o desafio do pós-Covid. Desperdiçar essa oportunidade será um erro imperdoável com a saúde dos brasileiros.

*Jorge Alberto Costa e Silva é ex-diretor da OMS (Organização Mundial da Saúde) e ex-presidente da Academia Nacional de Medicina

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