Separando o joio do trigo: uma resposta à ‘evangélicofobia’

Separando o joio do trigo: uma resposta à ‘evangélicofobia’

Marcos Eduardo Rauber*

02 de setembro de 2020 | 10h50

Marcos Eduardo Rauber. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Após recentes notícias do envolvimento de parlamentar, cantora gospel e pastora evangélica, no assassinato do próprio marido, e da prisão preventiva de líder partidário e também pastor evangélico, as redes sociais foram tomadas por “memes”, comentários maldosos e injustas generalizações dirigidas contra cristãos, especialmente os evangélicos. Os propagadores da “evangélicofobia”, fizeram desses lamentáveis episódios seu mais novo “cavalo de batalha”.

Apesar da inegável gravidade dos fatos noticiados – cuja rigorosa apuração e julgamento se esperam das autoridades competentes – não é possível calar diante de muitas expressões de desonestidade e oportunismo, cujo objetivo consiste em ridicularizar a fé de milhões de brasileiros, estimulando a descrença e a ojeriza a tudo quanto relacionado à moral judaico-cristã, um dos pilares da sociedade ocidental, com nítidos propósitos revolucionários.

De início, é preciso ressaltar a incoerência dos “evangelicofóbicos”, dentre os quais contam-se muitos autoproclamados defensores do feminismo e das minorias negras (“black lives matter”). É que os evangélicos atualmente representam mais de 30% da população brasileira, sendo que a maioria composta de mulheres (58%) e de pessoas de cor negra ou parda (59%), conforme matéria publicada pelo G1, em 13.01.2020 (https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/01/13/50percent-dos-brasileiros-sao-catolicos-31percent-evangelicos-e-10percent-nao-tem-religiao-diz-datafolha.ghtml). Pergunta-se: será que mulheres e negros ou pardos só merecem respeito e consideração se não forem evangélicos? Ao que parece, para alguns a resposta é sim. Lamentável, não é mesmo?

Mas indo além desse duplipensar, quanto aos escândalos midiáticos envolvendo pessoas identificadas como evangélicas, é preciso ressaltar que sempre houve e – infelizmente -continuarão existindo religiosos hipócritas e vendilhões da fé. Já eram assim os escribas e fariseus na época de Cristo, que dEle receberam duras repreensões (Mateus 23:13-33). Os infiéis dissimulados são comparados a “joio”, erva daninha que cresce em meio ao trigo (símbolo dos verdadeiros fiéis) e que, na época oportuna, dele seria separada e lançada no fogo (Mateus 13:40). Também declarou o Mestre que aquele que causasse escândalos, prejudicando a fé cristã, “melhor lhe seria amarrar uma pedra de moinho no pescoço e se afogar nas profundezas do mar”, alertando: “ai daquele por quem o escândalo vem!” (Mateus 18:6-7).

Em suma, Jesus, ao contrário do que muitos pensam, jamais foi tolerante com a maldade, a imoralidade, a corrupção, a falsidade e a hipocrisia, mas denunciou-as explicitamente e afirmou que estariam sujeitos a severo juízo divino aqueles que as praticassem. Mais: chamou o diabo de “homicida desde o princípio” e de “pai da mentira” (João 8:44), qualificações contundentes que descrevem a perversa e condenável condição espiritual e moral de assassinos e mentirosos em geral, à luz dos ensinos evangélicos. Portanto, a Igreja Cristã, inclusive de matriz protestante, não é – e não pode ser – condescendente com tais desvios morais.

A questão é que, como o “joio” tem aparência semelhante ao trigo e cresce no meio deste, religiosos hipócritas – alguns também criminosos – nem sempre são prontamente identificados, mas se misturam aos crentes sinceros e iludem a muitos, abusando da boa-fé e da credulidade alheia, até serem finalmente desmascarados, pois “não há nada oculto que não venha a ser revelado” (Lucas 12: 2).

O problema, portanto, não são os evangélicos, os cristãos em geral e, muito menos, o Cristianismo. O problema reside no ser humano, mau por natureza (ao contrário do que preconiza o mito do “bom selvagem”, de Rousseau), e na religiosidade vazia, praticada por quem cultiva mera aparência de virtude (com propósitos diversos), mas jamais reconheceu sua condição espiritual e moral deplorável, nem se arrependeu e buscou, pela fé em Cristo, a redenção dos pecados e, consequentemente, uma vida inspirada pelo exemplo de Jesus. Esta é a essência do Cristianismo e a proposta central do Evangelho.

Além disso, é necessário enfatizar que, no meio evangélico, além do “joio”, há também “trigo”, ou seja, gente séria, honesta e sincera, que exercita a fé cristã, esforçando-se para viver em coerência com o que professa. Sim, existem muitos pastores e líderes íntegros, intelectualmente qualificados, instruídos, zelosos e com bom senso, que coordenam importantes projetos sociais no Brasil e em território estrangeiro, atendendo comunidades muito pobres ou que sofrem violações de direitos humanos, inclusive pela ação de regimes ditatoriais. Em solo nacional, cita-se o exemplo da “Cristolândia” (https://www.cristolandia.org/), projeto coordenado por evangélicos batistas e que, há mais de 10 anos, atende usuários de drogas ilícitas (sobretudo “crack”) e moradores de rua, com excelentes resultados.

De qualquer sorte, ao contrário do que pressupõem os críticos, a Igreja Cristã não é – e nem pretende ser – instituição formada por indivíduos infalíveis, dotados de características angelicais. Ela é, essencialmente, uma congregação de gente “de carne e osso”, pecadores confessos, mas arrependidos e redimidos, que vacilam, hesitam, erram, tropeçam, caem, mas se levantam e seguem em busca da uma vida inspirada no exemplo de Cristo, impulsionados por gratidão e amor a Deus, não por legalismo hipócrita. Aliás, é ensino do próprio Jesus que “os sãos não precisam de médico, mas sim os doentes” (Marcos 2:17). E, na cosmovisão cristã, todos os seres humanos são doentes na perspectiva espiritual e moral, mas somente os que reconhecem tal condição e procuram o Médico dos médicos (1 Pedro 2:24), terão os sintomas atenuados ao longo da vida e, ao final, receberão cura definitiva.

Por último, convém pontuar que a perseguição à Igreja Cristã foi uma constante desde os primórdios do Cristianismo, em maior ou menor grau, de diferentes formas. E isso porque a mensagem cristã contrasta com o relativismo moral, a injustiça e a arrogância do Homem, confrontando-o com sua condição de criatura imperfeita, limitada, frágil, finita e incapaz de promover autojustificação perante a perfeita e inapelável Justiça divina. É natural que essa pregação ofenda os que vivem imersos no materialismo e no ceticismo, tendo a si mesmos como medida de todas as coisas. Para estes, a melhor defesa, continua sendo o ataque, ainda que retórico e por meios virtuais.

Nesse contexto, consolam e motivam as palavras de Jesus a seus verdadeiros discípulos, aqueles que são “trigo”: “Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós.” (Mateus 5:11-12).

E quanto aos “joios”, não perdem por esperar. Aqueles que não forem descobertos antes, tenham certeza: o dia da ceifa chegará e a fornalha estará bem acesa.

*Marcos Eduardo Rauber, membro da Igreja Batista Emanuel em Panambi-RS. Bacharel em Direito, especialista em Ciências Criminais pela FMP/RS. Promotor de Justiça no RS

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