“Senhor Eduardo, senha ‘cimento’, entregar R$ 1 milhão”

“Senhor Eduardo, senha ‘cimento’, entregar R$ 1 milhão”

Em ação civil pública, o promotor de Justiça Ricardo Manuel Castro enumerou supostas entregas de R$ 4 milhões da Odebrecht a Sebastião Eduardo Alves de Castro, apontado como intermediário da campanha do ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) à reeleição, em 2014

Fabio Leite e Luiz Vassallo

07 de maio de 2019 | 05h06

Em ação civil pública, o promotor de Justiça Ricardo Manuel Castro enumerou supostas entregas de R$ 4 milhões da Odebrecht a Sebastião Eduardo Alves de Castro, apontado como intermediário da campanha do ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) à reeleição, em 2014. Sob as senhas ‘formiga’ (R$ 1 milhão), ‘tesoura’ (R$1 milhão), ‘marceneiro’ (R$ 500 mil), ‘bolero’ (R$ 500 mil), ‘árvore’ (R$ 500 mil) e ‘cimento’ (R$ 1 milhão), entregas em dinheiro vivo teriam sido feitas na casa dele.

Alves de Castro foi assessor do ex-secretário de Planejamento de Alckmin e tesoureiro da campanha do tucano, Marcos Monteiro. Ele entrou na mira da Promotoria após o Estado revelar que seu endereço e seu celular são citados em conversas entre funcionários Transnacional, transportadora de valores usada por doleiros da Lava Jato para entregar dinheiro vivo.

O promotor pede o bloqueio de R$ 42 milhões de Alves de Castro. Também requereu que ele seja condenado por improbidade administrativa em ação civil pública em que Alckmin é réu por supostos repasses em caixa dois da construtora na campanha de 2014.

Ricardo Manuel Castro, que integra os quadros da Promotoria de Defesa do Patrimônio Público e Social – braço do Ministério Público do Estado -, anexou à ação conversas pelo aplicativo Skype entre funcionários da Transnacional sobre repasses a Eduardo Alves de Castro.
Todas ocorreram em 2014. ‘rua manguata 09 brooklin , sr Eduardo castro a senha é arvore entregar 500 mil’, diz uma delas, em setembro daquele ano, em meio ao pleito eleitoral.

“Na rua manguatá o contato eduardo castro não esta no local a esposa jaqueline informou a senha porém so vc para autorizar a liberação??”, afirma um funcionário da Transnacional ao seu superior, responsável por gerenciar as entregas.

Em outro diálogo, um operador afirma: “Entrega da Manguatá, agentes estão no local, o contato não tem previsão para chegar”. Eis que obtém a resposta de seu superior. “EDUARDO TAVA PERTO DA CASA E TA VOLTANDO PRA RECEBER OK”.

“NA ENTREGA DA MANGUATA JA FOI ENTREGUE 300MIL”.

“rua manguata n° 9 casa ,brooklin , senhor Eduardo castro senha é cimento entregar 1.000.000,00”, diz outra mensagem.

VEJA AS MENSAGENS: 

a) com relação ao pagamento realizado em 10 de julho de 2014 no valor de R$ 1.000.000,00 (um milhão de reais):

b) com relação ao pagamento efetuado entre 05 e 08 de agosto de 2014:

c) com relação ao pagamento efetuado em 13 de agosto de 2014,no valor de R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais):

d) com relação ao pagamento realizado em 29 de agosto de 2014:

a) com relação ao pagamento realizado entre 02 e 03 de setembro de 2014:

 

COM A PALAVRA, SEBASTIÃO EDUARDO ALVES DE CASTRO

A reportagem fez contato por telefone com Sebastião Eduardo Alves de Castro. “Não posso falar agora.”

Quando abordado pela primeira vez pelo Estadão, Alves de Castro negou enfaticamente ter recebido o dinheiro, mas afirmou ter longa amizade com Monteiro.

ESTADÃO: Por que seu endereço é citado em diálogos entre entregadores de dinheiro como destinatário de repasses em 2014?
SEBASTIÃO EDUARDO ALVES DE CASTRO: Não tenho nada disso, pelo amor de Deus. Nessa altura do campeonato, não é possível. Estou, de fato, preocupado. Eu não tenho porque estar nesse grau de ou nesse tamanho, nesse envolvimento. Não tenho ideia do que possa ser isso. Não me preocupa nesse sentido, me preocupa o fato de que nunca tive meu nome em coisa alguma, e muito menos nessa dimensão que você está me dando.
ESTADÃO: Mas por que eles citariam seu endereço?
CASTRO: Eu não passo sequer, você imagina uma conversa neste patamar que você se refere, algo que corre no STF, eu posso ter sido… citado… não tenho nenhum… bom, enfim, sei lá. Não dá nem para te dizer como isso possa aparecer. Não sei nem como te dizer sobre isso.
ESTADÃO: O endereço citado é sua casa e este já era seu celular à época?
CASTRO: Tenho esse número desde que trabalhei na Telesp celular.
ESTADÃO: E o endereço ao qual os transportadores se referem é sua casa?
CASTRO: Esse, de fato, é o endereço da minha casa e esse é meu número de telefone. Vou confessar. Não tenho a menor ideia do que isso se trate. Eu tenho que rir, porque como eu vou aparecer nessa conversa?
ESTADÃO: Qual é sua relação com Marcos Monteiro?
CASTRO: É meu amigo. É o cara com quem trabalhei, uma pessoa que conheço há 500 anos, mas não tenho esse tipo de envolvimento. Não sei o que tem a ver uma coisa com a outra, entendeu?
ESTADÃO: Ele nunca pediu ao sr para receber algo em nome dele?
CASTRO: Não tive nenhuma relação nesse nível. Eu não tenho, sei lá, esse patamar, esse tamanho, essa dimensão de participação em coisas dessa ordem. Estou tomando um susto aqui de você me dizer que surge em algum momento.
ESTADÃO: O sr perguntaria a Monteiro sobre o que significa sua casa e seu número de celular estarem citados em uma investigação sobre caixa dois em que ele é acusado de pedir o montante à Odebrecht?
CASTRO: Eu acho que vou ter. Eu vou ter que conversar, estou absolutamente assustado.
ESTADÃO: O sr ainda é agente público?
CASTRO: Ele (Marcos Monteiro) saiu, foi para outra função, eu não fui, não acompanhei, e continuei no meu cargo, no meu trabalho, e pronto. De lá saí, e pronto. Hoje estou desempregado.
ESTADÃO: Marcos Monteiro, então, nunca pediu ao sr para receber qualquer tipo de valor nessa época?
CASTRO: Não tenho noção de como isso foi parar, desconheço, nunca recebi esse tipo de valor, nessa dimensão, nunca passou isso na minha mão na vida.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO GUILHERME CORONA, QUE DEFENDE MARCOS MONTEIRO

“O advogado Guilherme Corona, responsável pela defesa de Marcos Monteiro, informa que seu cliente não é réu da referida ação e que por isso não tem o que comentar sobre os fatos narrados e que se encontra à disposição da justiça para qualquer esclarecimento necessário”
COM A PALAVRA, O ADVOGADO FÁBIO OLIVEIRA MACHADO, QUE DEFENDE GERALDO ALCKMIN

“Ainda não tive acesso a essa ação de improbidade, mas diante de todo o conjunto comprobatório apresentado na ação contra o ex-governador, não existe absolutamente nada que possa ligar essa suposta doação, esse suposto dinheiro, à campanha dele.”

 

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