‘Sempre fica uma brecha para você atuar’, diz operador da Lava Jato

Luccas Pace, réu da Lava Jato, afirma que esquema montado por Nelma Kodama movimentava US$ 300 mil por dia

Redação

16 de setembro de 2014 | 20h05

por Mateus Coutinho e Fausto Macedo

Em depoimento prestado à Justiça Federal, o operador de câmbio Luccas Pace, réu no processo da Operação Lava Jato, explicou para as autoridades o funcionamento do esquema de lavagem montado pela doleira Nelma Kodama, alvo da investigação, que movimentava US$ 300 mil por dia. “(A movimentação) Já era bastante pequena atualmente, que eu tinha acesso era uma coisa em torno de 300 mil dólares por dia, não passava disso, dificilmente estava passando disso”, afirmou.

Acusado de lavagem de dinheiro pelo Ministério Público Federal, Pace decidiu colaborar com a Justiça no começo do mês e relatou que era subordinado de Nelma Kodama há oito anos. atuando no fechamento das operações de câmbio do grupo. “Nós utilizávamos o corpo das remessas oficiais para poder dar vazão às remessas não oficiais”, explicou.

VEJA TRECHO DO DEPOIMENTO DE LUCCAS PACE:

Com experiência de 32 anos atuando em bancos na área internacional, Pace explicou que havia falhas no sistema do Banco Central e da Receita Federal que permitiam as operações fictícias de importação que serviam para enviar dinheiro para o exterior. “Existia uma brecha no mercado, dentro do sistema do Banco Central, da Receita Federal, onde no passar dos anos os mecanismos vão mudando, mas sempre fica uma brecha para que você possa atuar colocando importadoras sem capacidade de fazer o que ela faz e atuando sem radar”, ressaltou.

Ele ainda mencionou que o grupo possuía cerca de cinco contas “de transição” em Hong Kong que serviam apenas para simular as transações comerciais antes de o dinheiro chegar ao destino final. “O sistema permitia que se pagasse contas diretas de alguns clientes e quando isso não era possível porque a conta não era a conta de aparência comercial, você tinha que fazer uma passagem por uma conta de trânsito, então existiam as contas que pertenciam para o grupo”, explicou.

Além das contas, ele também confirmou à Justiça algumas das empresas de fachada do grupo, como as empresas Aquiles e Moura, Greta Comércio, Mesuma, Equimed e Império Importe. “Nenhuma dessas empresas teria capacidade, teria importações reais para fechar, isso só acontece porque do outro lado tem gente que participa do negócio, operadores, gerentes que facilitam a não conferência das normas de compliance”, explicou.

Nelma Kodama é uma dos quatro doleiros alvos da Lava Jato, deflagrada em março deste ano. Ela foi presa tentando fugir do País com 200 mil euros na calcinha. Além de Nelma, a Polícia Federal também prendeu os doleiros Alberto Youssef, Carlos Habib Chater e Raul Henrique Srour, que pagou fiança de R$ 7,2 milhões e está em liberdade.

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