Semana de Arte Moderna: disrupções culturais por um Brasil brasileiro

Semana de Arte Moderna: disrupções culturais por um Brasil brasileiro

José Barroso Filho*

16 de fevereiro de 2022 | 12h40

Companheiros da Semana de Arte Moderna de 22 no Hotel Terminus, São Paulo; da direita para a esquerda: Couto de Barros, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Paulo Prado, René Thiollier, Graça Aranha, Manoel Villaboim, Godofredo Silva Telles, Motta Filho, Rubem Borba de Moraes, Luiz Aranha, Tácito de Almeida e Oswald de Andrade. FOTO: ARQUIVO MIS/SP

Desde 1822, o Brasil busca a sua identidade. Nossa brasilidade estava empanada por uma tentativa de um burlesco engessamento parnasiano. Ora, somos tão especiais que não nos reconhecemos em modelos europeus, africanos, asiáticos ou quaisquer outros que não sejam nós mesmos.

Motivados a de criar, de modernizar, de desafiar uma cultura nacional, um grupo de artistas da brasilidade realizou, no período compreendido entre 13 e 18 de fevereiro de 1922, uma semana futurista, um verdadeiro escândalo disruptivo.

No Theatro Municipal de São Paulo, expoentes como Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Heitor Villa-Lobos, Mário de Andrade e Oswald de Andrade propuseram um novo olhar sobre a cultura brasileira.

Intercalando exposições de esculturas e pinturas com apresentações musicais e conferências literárias, o intuito foi introduzir as novas tendências da arte no cenário brasileiro.

O movimento lançou a busca por um conceito de arte verdadeiramente brasileiro, clamando que a cena artística nacional se “abrasileirasse”. A demanda cultural, igualmente, era por uma identidade nacional.

Arte “passadista” é uma contradição em termos.

A arte que não termina de dizer aquilo que diz dizer pois, é um gerúndio de múltiplos significados avessos a capturas temporais.

O Macunaíma pretensamente transgressor nunca foi tão inquietantemente conservador.

Um Passado que embasa, mas não escraviza, é condição que fomenta a Esperança, enquanto o Futuro for uma possibilidade.

Que venham mais algumas centenas de anos de rompimento com o passado, a revisitar o futuro de uma identidade nacional legitimamente brasileira.

Que nos afastemos do conformismo mimetizável que despreza a perene impermanência de um Futuro sempre atrasado em relação ao Presente.

A Semana de Arte Moderna começou em 1822 quando a Independência foi declarada. Em 1922, uma notável inquietação foi quem não somos. Em 2022, a questão é, quem somos. Quem seremos é o que nos desafia a cada dia até o cabalístico 2222.

Que saudade do Futuro.

*José Barroso Filho é ministro do Superior Tribunal Militar e conselheiro do Conselho Nacional de Educação

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