Sem ESG, Brasil estará esgarçado

Sem ESG, Brasil estará esgarçado

José Renato Nalini*

03 de dezembro de 2020 | 11h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

A sigla ESG, síntese de Governança Ambiental, Social e Corporativa, estará no eixo de todas as atuações da sociedade lúcida agora e no futuro. “Environmental, social and corporate governance”, é a sigla em inglês para os três fatores centrais na medição da sustentabilidade e do impacto social de um investimento em uma empresa ou negócio. Mas vale também para o setor estatal. E quando o Estado emite sinais de fragilidade em relação a qualquer dessas letras, então é o momento em que a sociedade civil deve protagonizar a mudança do perigoso rumo que a humanidade tomou nestas duas décadas do século 21.

O capitalismo funciona à base de lucro. Legítimo e justo. Mas não é o lucro acima de todas as coisas. Houve avanços em algumas partes do mundo e a sociedade reclama responsabilidade daqueles que faturam. Por isso a preocupação com o meio ambiente, cada vez mais desprezado pela ignorância que grassa em alguns espaços atrasados do planeta.

O importante é que os verdadeiros condutores da marcha humana pelo globo estão conscientes e acordados. Vão exigir dos infiéis que se ajustem ao novo catecismo. Ninguém sobreviverá se deixar de respeitar a natureza, coibir a desigualdade e for desatento com as contas, principalmente se estas forem aquelas de interesse da população que paga os desvarios dos governantes.

Sustentabilidade já não é uma palavra do marketing, utilizada quando a consciência ambiental reagiu à eliminação da biodiversidade, aos crimes perpetrados contra as florestas e demais biomas. Ela envolve um leque de posturas novas. É urgente, mencione-se uma das vertentes, insistir na adoção da logística reversa, que imponha a quem fabrica um produto, a obrigação de acompanhar sua vida útil até o final e seu aproveitamento para reciclagem ou destino ambientalmente correto.

Alguns bons exemplos surgem e vão contaminar alguns espaços, sob pena de boicote às marcas que não observarem as regras de sobrevivência da espécie. Assim, o alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – ODS da ONU, já não é modismo, senão obrigação ética. A indústria de pneus, por exemplo, sempre considerada uma das vilãs, hoje se converte. Já se adota a estratégia Eco-Safety Performance, para a fabricação dos chamados “pneus verdes”. Investe-se em redução do índice de acidentes, de consumo de energia, captação de água, emissão de CO2, em mais treinamento e em recuperação de resíduos.

Aquilo que sempre foi o fantasma dessa indústria, os pneus velhos se acumulando em lixões, jogados em rios e demais cursos d’água, pode ter solução viável. Existem pontos de coleta de material para reciclagem, onde o pneu em desuso deve ser levado. Há uma entidade criada pelos fabricantes de pneus, a Reciclanip, que recolhe os pneus nos pontos de coleta e os encaminha para a destinação. São cerca de 90 caminhões que retiram 1.250 toneladas de pneus a cada dia. Eles são utilizados como combustível em fornos de cimenteiras. A borracha do pneu é transformada em tapete para carros, pisos industriais, pisos de quadras esportivas e asfalto.

A par disso, há uma Política de Borracha Natural Sustentável, que incentiva agricultores, processadores, vendedores e organizações multilaterais. Cuida-se de elaborar manual para facilitar a implementação das regras ESG, mapeamento de riscos socioambientais nos locais de extração e melhora de rastreabilidade e da cooperação com fornecedores. Os agricultores recebem acompanhamento para melhorar a produtividade sem prejudicar a natureza. Pesquisas para produzir produtos cada vez mais amigos do ambiente, projetos de comunicação para estimular a demanda por borracha natural sustentável e descobrir outras fórmulas de se poupar recursos, com aumento da qualidade do produto.

Outras ideias e empresas também desenvolvem programas que suprem a deficiência de governos que parecem ignorar a gravidade da situação ou que se tornam reféns de fanáticos e fundamentalistas retrógrados. A sociedade civil tem a obrigação de assumir posição em momentos de obscurecimento da lucidez e assumir obrigações que são dela, pois ela não é senão o conjunto dos cidadãos do Estado e, de acordo com a Constituição da República, “todo o poder emana do povo”.

A pauta ESG é obrigatória e imprescindível. Sem ela, o Brasil restará esgadanhado, esgadelhado, esgalgado, no sentido de viver caindo de lazeira, de doença, esgalhado naqueles ramos que prometiam futuro venturoso, esganado, como quem teve o seu pescoço apertado ou sufocado, esgarrado, ou inteiramente desviado de seu rumo.

Embora alguns líderes pareçam esgazeados, com olhar inquieto, agitado a exprimir desnorteamento, ira ou estado de perturbação psíquica, e uma parte da cidadania sugira esgotamento, é urgente esgueirar-se pela senda hígida e fazer a diferença. O país está esgurido de comportamento sério, ético e voltado à recuperação das décadas perdidas, em que saímos da condição de promissora nação preservacionista, para a campeã dos incêndios criminosos, do desmatamento e do extermínio da biodiversidade.

Adotemos conduta ESG (para isso, a sintética seleção de adjetivos em português que começam com esg) e, se possível, acrescente-se um C de cultura, que é também uma causa nobre e bem negligenciada nesta Terra de Santa Cruz.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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