Sem desafinar a ideologia

Sem desafinar a ideologia

Felipe Bonamin Viveiros de Paula*

24 de outubro de 2020 | 11h35

Felipe Bonamin Viveiros de Paula. FOTO: VIVIANE SEEGER

No Leste Europeu tudo sempre teve um viés político. Mesmo para os mais experientes sociólogos e historiadores é difícil fugir às várias interpretações da imaginada “Europa do Leste”, definida muito mais por fatores ideológicos do que pela geografia. Durante quase meio século integrada por países que foram governados sob um regime econômico socialista e um sistema de partido único, a cartografia do Leste Europeu deve-se não aos pontos cardeais, mas à rosa dos ventos política denominada “Cortina de Ferro”.

Seja por falta de conhecimento ou até preconceito, a mesma Cortina de Ferro persiste no imaginário dos que enxergam a região como pobre, ou pouco diversa em cultura. A extensão do que seria o velho Leste Europeu é vasta e percorria desde o muro de Berlim, na Alemanha Oriental, até o alcance das fronteiras da Rússia com a Ásia, nos Montes Urais. A conotação histórica do “Leste” tem um peso maior do que as referências geográficas ainda presentes nos dias atuais. Pode não parecer lógico, mas Kirkenes, na Noruega, está muito mais ao Leste do que Kaliningrado, na Rússia.

Pouco divulgada para além de suas fronteiras, a música do “Leste Europeu” merece destaque nas posições críticas em mistura inteligente de geopolítica com demonstrações sonoras da estética oriental. Verdadeira aula de Relações Interacionais é a mais conhecida banda desse lado ainda misterioso do Continente: Dubioza Kolektiv. Criada nas cidades de Sarajevo e Zenica, na Bósnia-Herzegovina, constitui exemplo de vanguarda para quem deseja se envolver em mescla, nada convencional, de reggae, hip-hop, dub, eletrônica, folclore bósnio e sabores locais dos Bálcãs.

Em Sófia, na Bulgária, ano passado (2019) assisti a um show do Dubioza Kolektiv. O líder da banda, Brano Jakubović, antes da música de abertura pediu que a plateia se dividisse em dois grupos: um à esquerda e outro à direita, e que em momentos alternados se insultassem. A plateia vibrou e gritava palavras de ordem contra o grupo rival, no limite máximo de seus pulmões. Depois de longos minutos de embate e suposto ódio incitado pela banda, o vocalista pediu um minuto de atenção ao microfone, e perguntou: “Vocês se odeiam?”. Surpresos, o grupo da esquerda e o grupo da direita olharam uns aos outros, contestando em coro: “Não!”. O vocalista sorriu e acrescentou: “Exatamente. Muito cuidado com os falsos líderes que incitam o ódio. Que comece o show!”. Percebi que não se tratava apenas de uma apresentação musical, mas acima de tudo de um show de cidadania e civilidade de uma banda nascida em uma ex-Iugoslávia, marcada pelo conflito nacionalista e de inconcebível limpeza étnica, que foi a Guerra da Bósnia.

Enquanto muitos de nós nascíamos, entre 1992 e 1995, o mais sangrento e prolongado conflito da Europa, desde a II Guerra Mundial, acontecia e culminava no brutal genocídio de milhares de bósnios muçulmanos. E Dubioza Kolektiv deixa isso bem claro: “Cuidado, o ódio mata!”. Ao meu lado, algo emocionante: jovens sérvios, croatas e bósnios (que identifiquei pelas camisetas) – cujos países de origem foram os protagonistas da guerra –, ali demonstraram 24 anos depois, ao cantar e dançar de mãos dadas, o que a música promove e a política eleitoral muitas vezes esquece: Respeito.

Os sete integrantes do grupo vivenciaram o som do silêncio, uma infância sem indústria musical e muito menos liberdade de expressão. Os Bálcãs se recuperavam da profunda estagnação moral e econômica do pós-guerra. Como a música é termômetro da sociedade, o conceito da banda surgiu da necessidade urgente de dar voz às questões problemáticas da sociedade bósnia e enfrentar, coletivamente, os traumas do passado. Com energia e sagacidade, suas músicas estabelecem uma ágora musical para que assuntos polêmicos do passado não aterrorizem as mentes pensantes do presente. Dubioza proporciona alternativa para novo entendimento internacional sobre a ex-Iugoslávia, e faz dos palcos legítimos palanques de debate público, sem foco no ego e sim no “kolektiv”.

Diante das questões controversas dos grandes líderes mundiais no fim desta década, lançaram este ano (2020) o álbum #fakenews que aborda a ignorância política, o fervor ideológico, a desinformação e a privacidade/veracidade da Internet. Com um som politizado e sem perder o clima de festa, empurram multidões à uma euforia musical passando mensagens que despertam um diálogo capaz de questionar, com um tom anárquico, o non-sense das crenças humanas. Como neste conturbado 2020, isso vale para todo o Planeta.

Paz, compreensão, tolerância e forte crítica ao nacionalismo são temas recorrentes das letras. Os álbuns da banda são provocantes. Em Firma Ilegal (2008), o grupo aborda a situação social e política na transição econômica dos Bálcãs, a corrupção, a disputa ideológica entre privatizações versus propriedades sociais e as oligarquias políticas oportunistas. Para quem achou que não se identificaria com a sonoridade do Leste Europeu, mais uma novidade: os temas das letras são bem familiares a quem vive no Brasil.

O grupo bósnio declarou que suas músicas “Provam que as pessoas podem dançar e pensar ao mesmo tempo.” Esse é o valor político que a música tem. Um discurso pode até ser esquecido, mas a melodia e a letra de uma canção podem ser repetidas em nossos inconscientes sem que nós sequer percebamos. A música é verdade que não sai da cabeça, toca independentemente de nossa vontade, tem poder para crescer a consciência política pública e gerar respeito.

*Felipe Bonamin Viveiros de Paula, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, tem extensão universitária em Comunicação Empresarial pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e é mestre em Relações Internacionais e Organização Internacional pela Universidade de Groningen (Holanda). Escreve e edita o site: www.culturadorestodomundo.com

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