Segurança privada e violência: um mito que a economia desmancha

Jeferson Nazário*

14 de junho de 2017 | 04h00

Existe o mito de que a segurança privada cresce e se fortalece na medida em que a violência se alastra. Mas será isso uma verdade incontestável? Ou apenas um mito sem qualquer fundamento, que se dissolve e se desmancha no ar? Vejamos o que diz o mais recente estudo sobre violência no Brasil:

“O número de homicídios no Brasil, em 2015, ficou estável na mesma ordem de grandeza dos dois anos anteriores. Segundo o Ministério da Saúde, nesse ano houve 59.080 mortes. Trata-se de um número exorbitante, que faz com que em apenas três semanas o total de assassinatos no país supere a quantidade de pessoas que foram mortas em todos os ataques terroristas no mundo, nos cinco primeiros meses de 2017, e que envolveram 498 casos, resultando em 3.314 indivíduos mortos”.

Publicado no início de junho, o Atlas da Violência, levantamento feito pelo Instituto de Pesquisa Aplicada (Ipea), mostra que, em 2015, foram registrados 59.080 homicídios no país, número 22,7% superior ao registrado em 2005. São nada menos que 28,9 mortes a cada 100 mil habitantes. Mais de 70% dos assassinatos foram cometidos com arma de fogo.

Os dados expõem de forma visceral algo que todo brasileiro sabe e é obrigado a enfrentar diariamente: a violência no Brasil tem crescido de forma assustadora.

Mas se o mito de que a segurança privada cresce com a violência fosse realmente verdadeiro, era de se imaginar que o segmento de segurança privada apresentasse um crescimento exponencial formidável para acompanhar a escalada da violência. O problema desse raciocínio é que ele não tem amparo nem nos números da economia, nem tampouco na realidade.

A atividade de segurança privada, assim como outras categorias econômicas, depende de uma economia forte para crescer. A queda brusca no Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil nos anos de 2015 e 2016, que totalizou mais de 7% negativo (- 3,8% e – 3,6%, respectivamente), impactou diretamente as empresas do setor. O número de demissões superou o de contratações em cerca de 60 mil trabalhadores (incluindo vigilantes e funcionários das áreas administrativas), segundo dados do Ministério do Trabalho. Um saldo negativo de aproximadamente 9% no período. Pergunto: A violência caiu nesses dois anos? Não, quem caiu foi o PIB.

Com a economia em franca desaceleração, indústrias, comércios e outros contratantes tiveram que reduzir os custos e, em muitos casos, acabaram optando por diminuir a segurança das instalações. Há ainda as companhias que fecharam as portas.

Se os “os criadores de mito” tivessem razão, na Europa, a Segurança Privada deveria ser uma atividade menor, levando em consideração que os índices de violência são bem inferiores aos brasileiros. Pelo contrário. De acordo com a Confederação Europeia de Serviços de Segurança (CoESS), em 2013, os 28 países que compõem o bloco, somado a nações como Bósnia e Herzegovina, Macedônia, Noruega, Sérvia, Suíça e Turquia, tinham mais de 41 mil empresas e 2 milhões de vigilantes. Isto para uma população, segundo o Gabinete de Estatísticas do Bloco (Eurostat), de pouco mais de 500 milhões de habitantes.

O Brasil, no ano passado, para uma população de aproximadamente 200 milhões de pessoas, tinha cerca de 2.600 empresas e menos de 600 mil trabalhadores. Mesmo se multiplicarmos os números brasileiros por 2,5, valor que a população da União Europeia é superior a nossa, teremos quantidades inferiores com índices de criminalidade bem maiores. Ou seja, a Segurança Privada depende de uma economia aquecida e não do aumento da violência.

Assim como todos que vivem no Brasil, as empresas de segurança privada lutam por um País mais seguro e por uma economia mais forte. Porque esses são dois dos principais pilares para o desenvolvimento, em segurança, de uma nação.

*Jeferson Furlan Nazário – Presidente da Federação Nacional das Empresas de Segurança e Transporte de Valores (Fenavist)

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