Segurança ou liberdade: você já encontrou o equilíbrio?

Segurança ou liberdade: você já encontrou o equilíbrio?

Antoine Abed*

13 de setembro de 2020 | 06h00

Antoine Abed. FOTO: DIVULGAÇÃO

Por mais inusitado que possa parecer, mesmo com níveis de sociedades e costumes tão diferentes, alguns pensamentos do século passado continuam atuais e podem nos ajudar a entender o momento difícil que alguns indivíduos estão atravessando. Não é difícil identificar em nosso meio social pessoas que não conseguem se adaptar ao tipo de sociedade que estamos construindo. Atualmente, sempre ouvimos o relato de alguém que não alcançou as expectativas criadas principalmente por familiares. Perdidos e sem rumo, não se desenvolvem como poderiam e, ainda pior que isso, não conseguem enxergar com clareza seu papel no mundo.

Voltando algumas décadas no tempo, em 1929, Freud escreveu seu famoso livro intitulado O mal estar da civilização. Ele explica de maneira brilhante o ambiente tumultuado que existia nas primeiras décadas do século passado. Na obra, Freud descreve que a civilização provoca um mal estar nos indivíduos, pois existe uma separação clara nos interesses do indivíduo e da sociedade. Portanto, para o crescimento da civilização, existe a redução da pulsão individual e, por isso, cria-se um mal-estar. Além disso, ele alerta que toda civilização é baseada em uma troca: o indivíduo dá algo de valor para receber algo de outro valor. Quando escreveu o livro nos anos 20, o filósofo disse que o problema daquela geração era que eles tinham entregado muita liberdade em prol da segurança. Vale lembrar que Freud começou a escrever o livro logo depois da Primeira Guerra e de tão certo que seu pensamento estava, anos mais tarde, a Segunda Guerra ocorreu confirmando seu diagnóstico.

Depois de 1945, parece que percebemos para onde a falta de liberdade pode nos levar e começamos a substituir essa “troca” por uma outra justamente oposta, em que o indivíduo possua mais liberdade e menos segurança “depositada nas mãos de terceiros”. Movimentos para fortalecer esse espírito se espalharam por toda a parte nas décadas posteriores, como os movimentos hippies, as passeatas contra a Guerra do Vietnam, Black Power, movimentos feministas etc…

Porém, como estamos percebendo, esse “ciclo de liberdade” longo parece afetar uma grande parte da civilização atual e talvez estejamos no limite para mais uma mudança. O filósofo polonês Sygmunt Bauman de maneira a concordar com Freud, disse há alguns anos atrás que: “Se perguntássemos a Freud a mesma pergunta, tenho a impressão que ele diria a mesma coisa, que civilização é uma troca, porém seu diagnóstico seria o oposto, diria que nossos problemas hoje derivam do fato que nós entregamos demais nossa segurança em prol de liberdade.”

No livro que escrevi Ensaio Sobre a Crise da Felicidade, destaco a crise que a sociedade atual está passando pelo fato de não conseguir acompanhar as mudanças rápidas que ocorrem ao nosso redor provocadas por esse excesso de liberdade. Nos dias atuais, estamos sempre adotando formas de experimentar o novo. Esse grau elevado de liberdade faz com que o pensamento de manter uma forma fixa e duradoura não seja mais um objetivo como eram nas gerações passadas. Adaptamo-nos ao ambiente para retirar o melhor dele e, logo depois, mudarmos, a fim de recomeçar o ciclo.

Baseados nos cenários contemporâneos, as mudanças dos espaços sociais ocorrem de maneira intensa, de forma que o homem atual não consegue seguir/acompanhar essas transformações, ficando, assim, incapacitado de perceber-se como parte de um espaço ou se identificar com algum espaço comum. Essa falta de conexão com o mundo ao seu redor somado com a dificuldade de criar uma identidade própria num mundo que se transforma sempre, faz com que muitos de nós tenhamos problemas com esse excesso de liberdade atual.

Nesse sentido, Bauman nos ajuda a concluir duas coisas: a primeira é que nunca encontraremos a perfeita solução para o dilema entre liberdade x segurança. Essa balança virtual sempre estará em constante adaptação dependendo dos apetites da sociedade, sempre haverá mais de uma e pouco da outra. Já a segunda conclusão é que nunca pararemos de buscar a proporção ideal entre elas. Você já tentou?

*Antoine Abed é presidente-fundador do Instituto Dignidade e autor da obra Ensaio Sobre a Crise da Felicidade

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