Se puder, continue pagando

Se puder, continue pagando

Cassio Grinberg*

18 de março de 2020 | 06h30

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

O coronavírus é uma questão de saúde. Mas também é determinante para a economia, na medida em que alguns setores empresariais já começaram a pagar o preço que, no final das contas, todos nós teremos que pagar.

No livro Antifrágil, Nassim Taleb nos lembra de que, quanto mais baixo o risco, mais teremos que pagar por ele. O Coronavírus, no entanto, não nos deixa opção: com alto grau de disseminação e letalidade considerável para alguns grupos, protegermos uns aos outros é a única maneira de pensar em todos.

No plano da saúde, estamos nos preparando bem: por mais difícil, é importante o cancelamento de aulas, o distanciamento das multidões, cumprimentar sem estender a mão. Vejo pessoas mais conscientes de seu papel individual. Mas será que, também do ponto de vista da economia, não poderíamos estar fazendo um pouco mais?

Alguns setores da ponta, como o de eventos e o turismo, são os primeiros a ser prejudicados. E claro que tudo se move em cadeia: se o hotel deixa de faturar, não compra toalhas e demite o gerente. O gerente não paga o aluguel. O locador tira o filho da escola de inglês (que vai interromper as aulas de qualquer maneira).

Sabe-se que os governos irão postergar recolhimentos e injetar algum dinheiro na economia, mas sabe-se também que não será o suficiente. Daí então minha ideia: e se déssemos um jeito de continuar pagando aquelas contas que até já estavam previstas em nosso orçamento? E se aqueles que ainda não estão sendo afetados fizessem um esforço um pouco maior?

A academia de ginástica interrompe as aulas, mas a gente se esforça e continua pagando a mensalidade. Assim ela não demite o professor. Que não atrasa a mensalidade do asilo da mãe. A faxineira da sua casa virá com menos frequência em função do isolamento. Você continua depositando para ela. Ela continua comprando comida. O supermercado não demite o atendente. Sua empresa adia, mas não cancela o evento. Você posterga, mas não cancela a viagem.

Imagino que você esteja se perguntando: como posso continuar pagando se não tenho certeza de que continuarão pagando a mim? Trata-se de uma mudança de paradigma. Trata-se de não estocar. Trata-se de uma questão de assumir um risco, e depois pagar menos por ele. Trata-se de apostar na lógica da abundância em vez de derrapar na via da escassez. Dizem que tolos são os que não aprendem com os próprios erros, e sábios são os que aprendem com os erros dos outros, e o Brasil, no final de tudo, poderá ter uma oportunidade: se todo mundo ajudar, e se a país diminuir a atividade mas não parar, vai sair logo desta. E voltar em posição razoável. Tanto do ponto de vista da saúde, quanto do ponto de vista econômico.

Mas para isto, cada um de nós terá que fazer a sua parte.

*Cassio Grinberg, sócio da Grinberg Consulting e autor do livro Desaprenda – como se abrir para o novo pode nos levar mais longe

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