Se o ano terminasse hoje

Se o ano terminasse hoje

Cassio Grinberg*

22 de dezembro de 2019 | 06h00

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

Se o ano terminasse hoje, que será que faríamos? Deitaríamos na rede com música e repassaríamos a lista do que conquistamos? Ou recolocaríamos, em bloco de notas, a mesma lista como resoluções de amanhã — o livro que não escrevemos, a viagem que prometemos fazer?

Temos, em medida própria, nossa maneira de encerrar este dia. E ela tende a transitar entre os extremos de exagerar o passado ou sobrecarregar o futuro. Fico às vezes pensando naqueles que iniciam o ano simplesmente trabalhando: o garçom servindo a champanhe, o piloto atravessando o Atlântico.

Se o ano terminasse hoje, será que teríamos desacelerado dez dias antes, imaginando que todos o fariam, nossos clientes e nossos concorrentes? Será que teríamos avaliado que por ora estava suficiente, ignorando que nos encontramos justamente em momento de acelerar?

Precisamos nos abrir para o novo, e desaprender é recomeçar do meio: um novo ano é um novo começo — também em nossas casas ou nossas empresas: a expectativa de como vai ser como transição ao ‘será como quisermos’, ou melhor: ‘como fizermos’. Se o ano terminasse hoje, seria game over ou play again?

E se vivêssemos, todos os dias, como se o ano terminasse hoje? Digamos que eu tenha escrito este texto em dez de maio ou sete de outubro: será que não poderíamos ter trazido a família para taças na sacada, uva e lentilha? Será que não poderíamos reunir as equipes para uma festa de fim de ano sem o ano estar terminando de fato? Conheço empresas líderes que costumam fazer isso.

Se o ano terminasse hoje, tiraríamos os olhos do iPhone e olharíamos nos olhos de nossos filhos? Telefonaríamos para nossa mãe, mesmo que não mais pudéssemos? Desligaríamos o cronômetro do espelho? Daríamos paternidade ao fracasso? Comemoraríamos pequenas vitórias? Lembraríamos que uma rosa custa cinco reais?

Jon Kabat-Zin, professor do MIT e médico especialista em meditação, nos ensina que, sempre que respiramos, já é agora novamente. E agora, respiremos: já é ano novo novamente.

Se o ano terminasse hoje, acho que eu não desejaria a vocês feliz ano novo: desejaria, apenas, feliz.

*Cassio Grinberg, sócio da Grinberg Consulting e autor do livro Desaprenda – como se abrir para o novo pode nos levar mais longe

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