‘Se eu fosse candidato, eu ganharia no primeiro turno’, diz Lula

‘Se eu fosse candidato, eu ganharia no primeiro turno’, diz Lula

Fora da cadeira pela primeira vez desde que foi preso há sete meses, ex-presidente acusa Lava Jato de tirá-lo do processo eleitoral, em interrogatório tenso e cheio de bate-boca na ação penal do sítio de Atibaia

Ricardo Brandt, Julia Affonso e Fausto Macedo

15 Novembro 2018 | 05h00

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva acusou nesta quarta-feira, 14, a Operação Lava Jato de tê-lo tirado do ‘processo eleitoral’ porque ele poderia ter ganho a disputa ‘no primeiro turno’. Preso desde 7 de abril e condenado a 12 anos e um mês de reclusão, o petista teve sua candidatura indeferida, devido ao impedimento legal, e falou sobre a disputa eleitoral pela primeira vez, em audiência em que foi ouvido como réu do processo do sítio de Atibaia (SP).

“Vocês até já conseguiram me tirar do processo eleitoral. Porque sabiam que se eu fosse candidato eu ganhava no primeiro turno  as eleições. A primeira coisa foi me condenar de forma apressada para me tirar…”, disse Lula, em um dos vários entreveros entre o ex-presidente, sua defesa e os procuradores do Ministério Público Federal na audiência.

Em depoimento no  processo em que é acusado por suposto recebimento de R$ 1,02 milhão em propinas nas reformas do sítio de Atibaia, o ex-presidente disse não ser o dono da ‘chácara’ nem ter pedido nem pago as obras feitas pela Odebrecht e pela OAS no imóvel.

Ouvido pela terceira vez na Lava Jato, Lula ficou pela primeira vez frente a frente com a juíza federal Gabriela Hardt, sucessora do juiz Sérgio Moro, que tirou férias e anunciou sua decisão de pedir exoneração da carreira para assumir o Ministério da Justiça e Segurança Pública no governo do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL).

Em audiência de quase três horas de duração, carregada de tensão e bate-bocas, Lula disse que os processos da Lava Jato são ‘uma farsa’. “O que aconteceu com o apartamento, o Moro dá um julgamento aqui, eu sou acusado por fato indeterminado, o apartamento não tem nada a ver com a Petrobrás, mas eu estou na Lava Jato. E foi colocado na Lava Jato pelo Ministério Público só para me trazer para cá.”

“Ainda vamos provar a verdade.”

A juíza Gabriela Hardt repreendeu Lula em mais de um momento para que ele mudasse o ‘tom’ e que respeitasse sua autoridade na condução da audiência – iniciada às 14h e concluída por volta das 18h. Antes do ex-presidente, o pecuarista José Carlos Bumlai, amigo de Lula e réu, foi interrogado.

“Se ele (Lula) fugir do assunto e começar com discurso político, doutor, infelizmente, eu estou comandando a audiência, e vou ter que cortar”, advertiu Gabriela, dirigindo-se a um dos defensores do ex-presidente.

O procurador da República Athayde Ribeiro Costa afirmou que respeitava Lula. “O Ministério Público não tem interesse de condenar pessoas por fatos que são falsos. O senhor está aqui para se defender.”

Lula é acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro por supostamente ter sido contemplado pelas empreiteiras OAS e Odebrecht e também pelo amigo pecuarista José Carlos Bumlai com um valor total de R$ 1,02 milhão para obras de reforma e melhorias do sítio Santa Bárbara, no município de Atibaia, interior de São Paulo. O ex-presidente nega ser o dono do imóvel.

Durante a audiência, o ex-presidente afirmou que o caso do sítio era ‘um processo de mentira atrás de mentiras’. Lula citou um power point usado pelo coordenador da Operação Lava Jato, procurador Deltan Dallagnol, em uma entrevista coletiva em 2016. Naquela entrevista, Deltan afirmou que Lula era o ‘comandante máximo’ do bilionário esquema de corrupção instalado na Petrobrás entre 2004 e 2014.

Troféu. No final do depoimento, Lula declarou se sentir um ‘troféu’ da Lava Jato. O petista declarou se sentir ‘vítima do processo do triplex, do processo do sítio e do terreno do Instituto’ – neste caso, o ex-presidente também é acusado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro supostamente recebido da Odebrecht.

“Às vezes eu fico muito, mas muito nervoso com as mentiras que foram contadas no Power Point”, afirmou.

“Eu não sei se vou viver o tempo suficiente para que a verdade venha à tona, porque aos 73 anos, a natureza é implacável, a natureza vai conduzindo a gente. Eu peço a Deus que em algum momento, a história desse país, possa colocar a verdade do que aconteceu na Lava Jato, que poderia ser uma coisa feita corretamente para apurar corrupção, ladrão, prender, ela teve um descaminho no meu caso, estou dizendo no meu caso. Eu espero que um dia a gente possa provar isso.”

COM A PALAVRA, O ADVOGADO CRISTIANO ZANIN MARTINS, DEFENSOR DE LULA

Depoimento de Lula mostra arbitrariedade da acusação

O ex-presidente Lula rebateu ponto a ponto as infundadas acusações do Ministério Público em seu depoimento, reforçando que durante o seu governo foram tomadas inúmeras providências voltadas ao combate à corrupção e ao controle da gestão pública e que nenhum ato de corrupção ocorrido na Petrobras foi detectado e levado ao seu conhecimento.

Embora o Ministério Público Federal tenha distribuído a ação penal à Lava Jato de Curitiba sob a afirmação de que 9 contratos específicos da Petrobras e subsidiárias teriam gerado vantagens indevidas, nenhuma pergunta foi dirigida a Lula pelos Procuradores da República presentes à audiência. A situação confirma que a referência a tais contratos da Petrobras na denúncia foi um reprovável pretexto criado pela Lava Jato para submeter Lula a processos arbitrários perante a Justiça Federal de Curitiba. O Supremo Tribunal Federal já definiu que somente os casos em que haja clara e comprovada vinculação com desvios na Petrobras podem ser direcionados à 13ª. Vara Federal de Curitiba (Inq. 4.130/QO).

Lula também apresentou em seu depoimento a perplexidade de estar sendo acusado pelo recebimento de reformas em um sítio situado em Atibaia que, em verdade, não têm qualquer vínculo com a Petrobras e que pertence de fato e de direito à família Bittar, conforme farta documentação constante no processo.

O depoimento prestado pelo ex-Presidente Lula também reforçou sua indignação por estar preso sem ter cometido qualquer crime e por estar sofrendo uma perseguição judicial por motivação política materializada em diversas acusações ofensivas e despropositadas para alguém que governou atendendo exclusivamente aos interesses do País.

Cristiano Zanin Martins